TEXTOS
I CONFERÊNCIA NACIONAL DA U.M.C.
I CONFERÊNCIA NACIONAL DAS MULHERES
COMUNISTAS
Documentos 1
Edições 8 de Março
PREFÁCIO
A
libertação da mulher tornou-se um tema
de escaldante actualidade. Não só as mulheres - naturalmente as primeiras
interessadas na sua própria emancipação - mas todas as forças sociais e
respectivos partidos políticos passaram subitamente a dedicar à questão
feminina uma renovada atenção. Que se passa?
O
que se passa é que a mulher portuguesa não viu, consoante a fundada esperança
alimentada ao longo de quase cinquenta anos, chegar com o derrubamento do
fascismo o termo da exploração económica, da opressão social e da discriminação
sexual de que ela era e continua a ser vítima. As classes trabalhadoras
sentem-se traídas pelos políticos que as impediram de aceder ao poder, na
sequência do movimento revolucionário de 1974. Nada de substancial mudou na
situação anterior da mulher portuguesa.
A
mulher começou então muito justamente a pensar que as promessas demagógicas de
igualdade e de emancipação tinham unicamente conduzido a transformá-la numa
coutada eleitoral, numa reserva de votos, onde os partidos que a atraiçoaram
julgavam poder continuar a pescar apoio para novas traições. A mulher
portuguesa foi obrigada a tomar consciência quanto a uma questão absolutamente
vital na luta pela sua libertação, e que ela antes dos anos setenta geralmente
não punha, ou não punha correctamente: qual a linha política sob a qual a
mulher deve lutar, para se emancipar da escravidão assalariada e da opressão
social?
É
precisamente porque a mulher começou a colocar de uma forma iminentemente
prática esta questão crucial, que os diversos partidos políticos, o governo, a
Igreja e outras instituições sociais passaram a preocupar-se sobremaneira, não
com a mulher e com os problemas femininos, mas com a nova consciência e o novo
desejo de luta das mulheres.
Os
marxistas-leninistas portugueses sempre tiveram uma posição política de
princípio extremamente clara quanto ao problema da emancipação económica,
política, cultural e social da mulher. Mas os aspectos actuais e novos de uma
problemática já antiga, como é a questão feminina, levaram a que as mulheres
comunistas, aproveitando a passagem do dia 8 de Março, Dia Internacional da
Mulher Trabalhadora, se reunissem naquilo que ficou sendo a sua I Conferência
Nacional, a fim de definirem a base teórica e ideológica do movimento
revolucionário feminino, bem como as medidas políticas que permitam à mulher
trabalhadora tornar-se um sujeito consciente da luta pela sua libertação.
Os
documentos aprovados na I Conferência Nacional da União das Mulheres Comunistas
- organização do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses para as
mulheres revolucionárias marxistas-leninistas - revestem-se de uma indiscutível
importância política, não apenas para os que perfilham as posições do
marxismo-leninismo, mas para todas as mulheres exploradas e oprimidas do nosso
povo.
É
dentro desta perspectiva que resolvemos encetar a publicação desses documentos
políticos, numa colecção que se destina a colocar ao alcance da mulher os
instrumentos teóricos e ideológicos de que ela necessita para caminhar por si
mesma.
E
principiaremos por publicar precisamente os dois mais importantes documentos
que a Conferência aprovou. O primeiro,
intitulado Os Marxistas-Leninistas e a Questão
da Mulher Trabalhadora,
é um texto da autoria do camarada Arnaldo Matos, preparado para ser lido no
colóquio realizado em 27 de Fevereiro de 1981,
em Lisboa, colóquio onde se discutiram vivamente os problemas actuais da mulher
portuguesa. A I Conferência da União das Mulheres Comunistas adoptou como
documento seu o texto desse colóquio, por entender que ele consubstanciava os
princípios fundamentais dos comunistas quanto à questão feminina e adiantava
algumas posições inovadoras em relação a um certo número de problemas
importantes.
O segundo documento, com o título O
Movimento Revolucionário das Mulheres Trabalhadoras e as Tarefas dos Comunistas, é o texto do Relatório Político e de
Organização que a Comissão Executiva da União das Mulheres Comunistas
apresentou à sua I Conferência Nacional. Além do
tratamento dos problemas políticos que se prendem directamente com a questão
feminina, o Relatório define a posição dos comunistas portugueses não só quanto
à situação política portuguesa actual, mas sobre dois outros temas extremamente
candentes, como são o da situação actual no mundo e o dos problemas actuais do
Movimento Comunista Internacional. O texto do Relatório é também da autoria do camarada Arnaldo Matos.
Para
a presente publicação, o autor reviu os dois documentos em aspectos unicamente
de pormenor, relacionados com erros de impressão e de omissão, saídos na edição
dactilografada para uso da Conferência.
Edições 8 de Março
OS MARXISTAS-LENINISTAS E A QUESTÃO DA
MULHER TRABALHADORA
Camaradas
Chegamos hoje ao
termo desta curta série de colóquios com que a União das Mulheres Comunistas
assinalou os trabalhos preparatórios da sua I Conferência Nacional.
Antes de procurar
desempenhar-me, com a ajuda de todos, da tarefa que agora me compete, gostaria
de formular o voto de que nós, mulheres comunistas e o nosso Partido,
retomássemos mais desenvolvidamente no futuro, logo após o encerramento dos
trabalhos da nossa Conferência, a realização de debates políticos e culturais
desta natureza, de forma a que se pudessem passar em revista todos os aspectos
essenciais da situação da mulher trabalhadora no Portugal de hoje, e se abrissem
as mais amplas perspectivas quanto à organização e ao progresso do movimento
revolucionário das mulheres.
De súbito, os
problemas da mulher adquiriram uma enorme acuidade e passaram a estar na ordem
do dia da acção do governo, da actividade de todos os partidos políticos e
mesmo das preocupações de institutos e sociedades mais ou menos científicos.
A que se deve esta
codícia, como diriam os espanhóis, pelas coisas femininas? Como se explica que
os problemas das mulheres, que têm sido sistematicamente silenciados e
escamoteados, saltem de repente para a ribalta, e aí se mantenham como
problemas urgentes e maiores?
Isso deve-se, a
meu ver, a toda uma série de razões, que convém explicitar.
Em primeiro lugar,
deve-se a que existe efectivamente um mundo de problemas e de contradições
reais de que as mulheres constituem o âmago, problemas e contradições que não
só não encontraram até agora uma solução correcta, como têm vindo a agravar-se
rápida e incessantemente, ameaçando verdadeiras roturas no tecido social onde
nasceram e se inserem.
Deve-se, depois,
ao facto incontestável de que a mulher resolveu assumir-se como sujeito da sua
própria vida, que ganhou uma maior consciência da sua situação na produção e na
luta de classes, que assimilou uma considerável experiência das lutas passadas
e se manifesta disposta a aplicar devidamente as lições na sua prática
revolucionária presente e futura.
Deve-se, ainda, à
circunstância assinalável de que todo o nosso povo - e, por conseguinte, todas
as mulheres trabalhadoras - passou muito recentemente pela prova de fogo de uma
revolução inacabada e traída, revolução onde, apesar de tudo, a mulher destruiu
mais obstáculos, liquidou mais preconceitos e progrediu mais no sentido da sua
emancipação nesses dois anos do que nas quatro décadas que os precederam.
Perante estes
acontecimentos novos, cada classe social e cada partido político têm estado a
extrair as necessárias consequências e reformulam a sua táctica política de
combate. A grande burguesia latifundiária e monopolista, cujo programa imediato
é a restauração do seu poder ameaçado e a reconstrução do seu modo próprio de
explorar os trabalhadores, dá uma grande atenção à questão feminina, à questão
da juventude e à questão da família, porque se trata para ela de criar as condições
ideológicas e culturais de recuperação da mulher para a contra-revolução e de
restauração contra-revolucionária da família burguesa para as suas tarefas
políticas e sociais. Para a grande burguesia latifundiária e monopolista
trata-se, em suma, de meter a mulher “nos eixos”, uma vez que ela andou
transviada pelos “ímpetos revolucionários” de 1974 e 1975.
Para a pequena
burguesia, seja qual for a aparência, mesmo feminista e avançada, com que
recubra as suas posições ideológicas, o seu interesse súbito e suspeito pelos
problemas da mulher destina-se única e exclusivamente a isto: manter a mulher
atrelada às concepções retrógradas e tradicionais, de modo a que o
pequeno-burguês encontre no “doce lar” a tranquilidade e estabilidade que a
luta de classes lhe nega na sociedade. A hipocrisia pequeno-burguesa pode
chegar a consentir que haja uma grande bagunça cá fora; mas no seu lar - isso
nunca. O pequeno-burguês acha que, se a revolução lhe entra em casa, o empurra
inexoravelmente para o beco sem saída do suicídio ou do psicanalista.
Quanto à classe
operária, a sua preocupação pelos problemas da mulher não é súbita nem é de
agora: é de sempre. O que há de novo na sua atitude actual e de momento é que
ela põe-se em campo e organiza-se e luta, para que o ataque desferido pela
grande burguesia e pela pequena burguesia na presente situação política não
tenha a mínima parcela de êxito, e para que as mulheres, ao contrário de
deixarem-se embarcar nos desejos restauracionistas do capitalismo, valorizem
devidamente as experiências das suas lutas revolucionárias mais recentes,
reforcem a sua organização, elevem a sua consciência e fortaleçam o combate
pela sua emancipação.
Todas as classes
estão, pois, interessadas em discutir no momento que passa (e agora mais do que
nunca) os problemas da mulher. Mas é claro que cada classe tem o seu ponto de
vista próprio sobre a matéria, e que esses pontos de vista não só não se podem
harmonizar entre si, como estão condenados a combaterem-se de morte.
A posição dos
marxistas-leninistas relativamente à questão da mulher trabalhadora começa,
portanto e primacialmente, por colocar sobre uma clara e precisa base de classe
o debate ideológico e político a que agora intensamente se procede e que tem
por centro a mulher.
DE QUE MULHER SE TRATA?
Nós,
marxistas-leninistas, somos visceralmente contra essa baboseira ideológica
reaccionária que consiste em falar da mulher em
geral,
sem especificar de que mulher concreta se trata. A burguesia e todas as classes
dominantes antes dela criaram desde cedo uma mistela filosófica idealista,
conhecida pela teoria dos Universais, mediante a qual se chegava facilmente à
conclusão de que, no campo que agora nos interessa e é o da luta de classes, o
explorador e o explorado tinham, no fundo, a mesma “essência humana” e eram,
por conseguinte, essencialmente iguais. O operário e o burguês teriam, assim, a
mesma natureza e a mesma essência humana, pelo que o explorador e o explorado
eram irmãos. E, como irmãos, não era lícito que lutassem uns contra os outros,
porque isso se opunha à sua natureza essencial comum.
No campo
específico da mulher, a burguesia aplica aquela mesma teoria reaccionária e
procura escamotear a questão, falando abundantemente de uma “natureza
feminina”.
A “natureza
feminina” vem a dar, ao fim e ao cabo, naquelas conhecidas charlatanices de que
a mulher é inferior ao homem, menos inteligente, mais estúpida, mais fraca,
passiva, pueril, e uma série toda de outras invectivas, calúnias e provocações.
Mas vem a dar também em que, supostamente todas iguais, estariam todas na mesma
situação, qualquer que fosse a posição de classes que ocupassem na sociedade.
Para nós,
comunistas, não há obviamente nenhuma “natureza feminina”. Para nós,
comunistas, as mulheres, por outro lado, também não são uma classe social. São
naturalmente um sexo diferente do do homem sob o ponto de vista biológico, mas
mais nada. E entre as mulheres, como entre os homens de uma dada sociedade, há
as mesmas classes sociais que caracterizam essa sociedade. Ou, melhor dito, as
classes sociais são constituídas por homens e mulheres, consoante o papel que
cada um deles ou delas desempenha na produção.
Nós, comunistas,
preocupamo-nos sobretudo com a mulher operária e com a mulher do operário. Não
só porque é essa mulher que é vítima da exploração e opressão mais desenfreada,
mas porque ela integra de pleno a única classe consequentemente revolucionária
da nossa sociedade.
As preocupações e
as tarefas dos comunistas centram-se, seguidamente, na luta da mulher
camponesa, porque ela é parte integrante do mais sólido e mais consequente
aliado da classe operária na revolução, ou, dito de outra maneira, porque a
revolução proletária não pode triunfar, sem que se proponha resolver
efectivamente os problemas políticos dos camponeses e, portanto, das mulheres
camponesas.
Não obstante, as
nossas preocupações e tarefas políticas concernem também aos problemas e à luta
das mulheres democráticas, isto é, das mulheres que integram outras camadas
sociais aliadas do proletariado, ou que este, na sua acção política
revolucionária, pretende neutralizar ou subtrair à influência imediata dos
monopolistas e latifundiários.
Mas há um ponto em
que a luta dos comunistas, em que a luta da mulher operária, da mulher
camponesa e da mulher trabalhadora em geral, coincide com as aspirações
objectivas de todas as mulheres, independentemente da classe social a que
pertençam. Esse ponto de coincidência objectiva reside em que não apenas a
mulher trabalhadora, mas toda a mulher é vítima de uma
opressão comum, consubstanciada na supremacia familiar e social do homem. E é
apenas neste sentido que se pode falar de uma luta social da mulher, sem
especificar de que mulher se trata.
Estando a mulher,
na sociedade portuguesa, inserida nas classes sociais que ficam indicadas, pelo
interesse de qual delas se deve organizar e dirigir a luta das mulheres?
Cada classe e cada
partido tem uma resposta para esta questão.
A grande burguesia
- que inclusivamente tem na Comissão da Condição Feminina (vejam como só o
título já diz tudo) um órgão governamental e institucional para o assunto -
acha, obviamente, que o movimento das mulheres até pode ser aceitável, desde
que se confine a um quadro estritamente jurídico e apolítico: uma relativa
igualdade de direitos a estabelecer por lei e uma emancipação progressiva da
escravidão das panelas, das mamadeiras e dos cueiros. Claro está que este
feminismo grande-burguês não vai bulir com uma única vírgula da situação de
exploração e opressão da mulher, e, pelo contrário, trará imensos lucros políticos
e inesgotáveis lucros económicos para a classe dos monopolistas e agrários.
Lucros políticos: porque a luta das mulheres fica nua de qualquer sentido e de
qualquer perspectiva revolucionária; lucros económicos: porque a emancipação de
que falam se traduz e esgota na aquisição maciça de electrodomésticos e outros
escravos mecânicos, alargando o mercado e a procura das mercadorias de que os
capitalistas são donos; e ainda lucros económicos: porque uma certa libertação
da mulher operária e da mulher da classe média das tarefas socialmente
improdutivas do lar as lança no mercado do trabalho e engrossa o exército
industrial de reserva, com o qual o capitalista ameaça continuamente o emprego
e o nível do salário do operário. E à mulher da grande burguesia interessam
também as coisas sobre este ponto de vista. Desde logo, porque ela há muito
tempo se libertou já, mediante o recurso à criadagem e aos servos, da tal
escravatura das panelas, das mamadeiras e dos cueiros. E, à outra, porque
aquela parcela de humilhação e opressão que lhe traz o seu estatuto social de
mulher é o pequeno preço que ela paga para usufruir, com o marido e a família
burguesa, da mais-valia que essa classe esmifra ao trabalhador.
Nestes termos, a
luta da mulher trabalhadora não pode ser norteada pelos interesses da mulher
burguesa, nem dirigida pela política da classe dos capitalistas. Ainda que a
revolução proletária e a luta das mulheres trabalhadoras estejam historicamente
condenadas a libertar da opressão e da humilhação inclusivamente a mulher da
grande burguesia, como aliás todo o género humano.
Quanto à pequena
burguesia, todo o ímpeto revolucionário na questão feminina se esgota na
necessidade vital de arranjar a todo o custo dois ordenados familiares, um
para o homem e outro para a mulher. O que está para o pequeno-burguês em
causa não é, por conseguinte, a libertação da mulher do domínio do macho e
dessa humilhação ancestral; o que está para ele em causa é a sobrevivência do
seu estatuto de domínio, e, para isso, tanto lhe faz que a mulher venda o corpo
na prostituição pública ou que arranje um emprego como secretária de relações
públicas - ocupações que nem sempre substancialmente diferem uma da outra...
Não é, pois,
também em obediência aos interesses mesquinhos e egoístas da pequena burguesia,
por mais radicais que se apresentem as suas concepções de sufragistas e de
feministas, que se pode chegar a uma real emancipação da mulher. A luta pela
igualdade jurídica da mulher com o homem, pela fixação na lei de iguais
direitos e liberdades para mulheres e homens, é um ponto que une a acção
democrática da pequena burguesia com a actividade revolucionária do
proletariado. Mas não são nem esses métodos nem essa concepção política que
podem e devem presidir à luta pela libertação da mulher.
A luta pela
obtenção de uma igualdade jurídica e política da mulher com respeito ao homem,
bem como a luta pela satisfação das reivindicações económicas e sociais
imediatas das mulheres - lutas em que os operários aparecem frequentemente
associados a outros sectores democráticos - têm uma função instrumental e
destinam-se a isto: a luta pela igualdade política e jurídica, a limpar o
terreno do lixo que o atulha, de forma a mostrar à mulher que a exploração e a
opressão dela permanecem as mesmas (e em certos aspectos agravam-se) que eram
antes da obtenção dessa tão chorada igualdade; a luta pela satisfação das
reivindicações imediatas no campo económico e social, a dar à mulher
trabalhadora consciência real da sua força e da necessidade da sua organização
para poderem obter-se transformações sociais profundas.
A classe operária
tem, assim, um ponto de vista teórico, ideológico e político diferente e
autónomo do ponto de vista de qualquer outra classe social, e substancialmente
antagónico com o ponto de vista de qualquer das duas classes a que nos
referimos a propósito da chamada questão da mulher.
EM QUE CONSISTE A QUESTÃO DA MULHER?
Não existe, na
nossa sociedade, propriamente uma questão do homem, mas existe efectivamente
uma questão da mulher. Para sermos mais precisos, devemos desde já dizer que a
solução da própria questão da mulher põe desde logo a mulher em questão. E que cria, desde já, também uma questão do homem e põe principalmente o homem em questão.
Em que consiste,
então, para nós, marxistas-leninistas, a chamada questão da mulher?
Consiste em que a
mulher trabalhadora é objecto e vítima de discriminação em todos os campos que
se queiram considerar, não só relativamente ao sexo masculino em geral, mas
mesmo em relação ao homem trabalhador. Consiste, por outro lado, em que toda a
mulher, e não só a mulher trabalhadora, é vítima de toda a casta de
discriminações em relação à outra metade do género humano tomado no seu
conjunto.
Mas discriminação
é ainda um eufemismo linguístico e cultural para caracterizar a situação da
mulher. Porque o problema está em saber em que coisa consiste essa
discriminação da mulher e, sobretudo, da mulher operária e camponesa.
Uma sociedade
dividida em classes, como a sociedade capitalista portuguesa, é uma sociedade
em que uma classe explora e oprime outra classe. A discriminação de que se
fala, quando se quer caracterizar a questão da mulher trabalhadora, é,
portanto, uma discriminação ao nível da exploração e da opressão de que são
vítimas as classes exploradas e oprimidas. Por outro lado, a mulher
trabalhadora é mais explorada e é mais oprimida pela classe exploradora (e não
só) do que a generalidade dos explorados e oprimidos enquanto classe. E esta
sobreexploração da mulher trabalhadora redunda, ao fim e ao cabo, em agravamento
da exploração de toda a classe trabalhadora enquanto tal.
A mulher operária
é mais explorada do que os homens desta classe. Será? Sim, é-o efectivamente.
Senão veja-se. O sistema de exploração capitalista assenta na exploração da
força de trabalho do operário, mediante um processo que consiste em o
capitalista reter para si, como capital e como propriedade privada seus, a
mais-valia não paga ao trabalhador.
Não obstante essa
extorsão feita a qualquer operário no processo da produção, o capitalista paga
ao operário um salário, salário que é o preço da sua força de trabalho. O
capitalista paga assim um salário pela força de trabalho que aluga ao operário
e embolsa, como trabalho não pago, tudo aquilo que o operário produziu a mais
do que é necessário para repor o valor do salário da jornada.
Mas como é que as
leis económicas do sistema capitalista quantificam e determinam o salário do
operário? Em princípio e em geral, essas leis económicas impõem que o salário
do operário equivale ao preço das mercadorias que são necessárias para manter o
operário a trabalhar para reproduzir a sua força de trabalho através de um novo
operário, quando o primeiro já não prestar. Nestes termos, o salário do
operário tem a função económica de mantê-lo a ele e à sua família, portanto, a
ele, à mulher e aos filhos.
Quando as
necessidades da acumulação e da concentração capitalistas impuseram a abertura
das portas da fábrica ou da mina à mulher do operário e a transformaram por seu
turno em proletária, o capitalista passou a pagar-lhe também a ela um salário.
Mas para além da discriminação salarial da operária em relação ao operário -
discriminação que ainda hoje dura e durará por todo o tempo em que houver
capitalismo - para além desta discriminação salarial que representa maior
exploração para a mulher do que para o homem no mesmo posto de trabalho; para
além de tudo isso, os nossos marxistas frequentemente esquecem que o salário
entretanto pago à mulher representa uma dedução feita pelos capitalistas do
salário que eles, por imposição das próprias leis económicas do seu sistema
explorador, teriam de pagar ao marido, para que ele se mantivesse em condições
de continuar a trabalhar e alimentar a sua
mulher
e os seus filhos. No fundo, tudo se passa como se o capitalista nada pagasse à
mulher operária, que já não devesse ao marido dela quando ela não trabalhava.
Diga-se, de
passagem, que o capitalista, no entanto, não contava que a irrupção da mulher
na produção social e na fábrica, ao mesmo tempo que trazia ao capitalista o benefício
da diminuição do salário real dos homens operários e da sobreexploração da
força de trabalho feminina, iria também lançar os fundamentos económicos e
sociais, materiais, da emancipação da mulher, e que, em última análise, iria
apressar o fim da classe dos capitalistas e do seu sistema de opressão e de
exploração.
Assim, a inocente
expressão discriminação económica da mulher é uma maneira
hábil e quase burguesa de doirar a pílula de uma realidade bem mais crua, e que
é a realidade da sobreexploração da mulher operária. E a sobreexploração da
mulher operária significou, e significa ainda, aumento da exploração do homem
operário. Portanto, intensificação da exploração de toda a classe operária.
Porém, a questão
da mulher não tem só o alcance que resulta desta exploração económica de base.
A questão da mulher é mais antiga do que o sistema de exploração capitalista.
Este sistema agravou em toda a linha a situação de opressão em que a mulher se
encontrava quando ele surgiu na história, ainda que pela primeira vez fosse ele
que abrisse, em virtude das condições materiais que criou, o terreno para a
emancipação definitiva da mulher, através da revolução proletária.
Nos países em que
se efectuou e foi ao fundo das coisas, a revolução burguesa constituiu na sua época
um real progresso histórico e, nessa medida, “libertou” à maneira burguesa a
mulher das formas de exploração e opressão que caracterizavam o sistema
económico e político contra o qual o capitalismo se levantou, frequentemente em
armas. Ao sistema de exploração e opressão retrógrado do feudalismo, o
capitalismo contrapôs um novo e mais avançado sistema de exploração. Quando a
classe operária começou a erguer-se organizada e ameaçadoramente contra o
capitalismo, a burguesia, já instalada no poder, viu-se forçada, na sua luta
reaccionária pela sobrevivência, a fazer apelo e a repor em prática todas as
concepções retrógradas das classes exploradoras anteriores a ela.
Mas há uma
questão, da maior importância, herdada de todas as sociedades de classes anteriores
à burguesia, na qual a burguesia não só não tocou como agravou nas suas
contradições. E essa questão é precisamente a forma de família e a posição na
mulher nela e, por reflexo, em toda a sociedade.
O marxismo ensina
que a forma actual da família - a família monogâmica - não existiu sempre na
história da humanidade, nem existirá sempre pelos séculos e séculos amen.
Enquanto todas as formas de família anteriores tinham por base causas
exclusivamente naturais, a forma actual da família tem uma base económica, uma
causa exterior ao próprio círculo familiar natural. Foi preciso que a sociedade
chegasse a um determinado grau do seu desenvolvimento, susceptível de levar à
constituição de reservas de certas riquezas sociais não imediatamente
consumidas, e que logo foram apropriadas pelos homens com exclusão das
mulheres; foi preciso que se constituísse económica e historicamente a
propriedade privada das riquezas socialmente produzidas; foi preciso que, em
consequência dessa apropriação privada, a sociedade ficasse dividida em classes
- para que a mulher visse substituído o papel de respeito e consideração de que
gozava na sociedade primitiva pelo papel de supremacia e de dominação do homem.
A derrota
histórica do sexo feminino resulta, assim, do aparecimento da propriedade
privada e coincide com a divisão da sociedade em classes. A mulher só
recuperará - naturalmente, a um nível infinitamente superior - a igualdade com
o homem e a consideração social, quando forem eliminadas as causas económicas
que degradaram e aviltaram, a ela certamente, mas também por reflexo ao próprio
homem. É com a supressão da propriedade privada, tarefa da revolução proletária
e do comunismo, que a mulher será um ser humano de parte inteira.
Todas as teorias,
concepções e ideias reaccionárias sobre a mulher, desde a teoria da “natureza
feminina” até às ideias sobre a “inferioridade” congénita da mulher, são
teorias, concepções e ideias que visam perpetuar o sistema de exploração
capitalista e reproduzir contínua e alargadamente as relações sociais de toda a
ordem que caracterizam esse sistema.
A violência
exercida na sociedade e na família sobre a mulher não são um problema
psicológico do foro da psiquiatria, nem um problema de patologia individual do
foro da medicina. São, acima de tudo, um reflexo na cabeça, nos sentimentos e
no comportamento dos homens das relações económicas e sociais retrógradas e
reaccionárias, em cuja teia a mulher se encontra presa.
Noventa e nove
vírgula noventa e nove por cento do que hoje os médicos, psiquiatras e
ideólogos burgueses consideram a “psicologia feminina”, a “afectividade
feminina”, a “libido feminina”, a “sexualidade feminina”, o “comportamento
feminino”, a “insegurança feminina”, a “bisbilhotice feminina”, a “fraqueza
feminina”, a “criatividade feminina”, a “paciência feminina”, o “pensamento
feminino”, o “gosto feminino” e até a “moda feminina”, não é outra coisa senão
o reflexo das relações de exploração que caracterizam o capitalismo, formas de
manter e intensificar a opressão da mulher, obrigando-a a cumprir a função que
lhe reservam a classe dominante e os homens em geral.
É suposto que Portugal é um país
eminentemente católico. Mas catolicismo é o nome religioso de opressão e
humilhação sobretudo da mulher. A classe dos esclavagistas, dos senhores
feudais e dos capitalistas encarregaram sempre a religião - esse ópio do povo -
e, no nosso caso a religião católica apostólica romana, de uma autêntica
lavagem ao cérebro, que dura vai para mais dois mil anos, pela qual lavagem ao
cérebro um grande número de mulheres portuguesas actuais ainda está
infelizmente convencida de que só poderá alcançar o “paraíso eterno”, se
aceitar ser e permanecer estúpida, mais estúpida e sempre estúpida.
Com efeito, todos os santos pilares da
igreja e todos os seus fundamentais documentos “sagrados” colocam a mulher a um
nível mais baixo que o dos cães. E não se julgue que é má vontade da minha
parte - má vontade que em todo o caso, confesso, existe. Mas que não é só nem
fundamentalmente má vontade, pode ver-se apenas com alguns exemplos: Santo
Antonino escreve que “a mulher é uma arma do diabo”; Santo Ambrósio, que “sem a
intervenção da mulher nunca o diabo levaria os homens de vencida”; S.
Bernardo, que “a mulher foi o dardo agudo do demónio, que por ela venceu Adão,
fazendo-lhe perder o paraíso”; S. Gregório, que “a mulher tem o veneno de uma
cobra e a malícia de um dragão”; S. João Damasceno, que “a mulher é uma ténia
furiosa que tem sede no coração do homem”, Santo Agostinho, que “é um problema
saber se as mulheres ressuscitarão um dia no seu sexo, porque seria de recear
que nos induzissem em tentação diante do próprio Deus”. E para que de uma
vez por todas se não diga que é má vontade a afirmação que faço e mantenho de
que a igreja coloca a mulher ainda abaixo de cão, recorde-se esta preciosidade
de um dos mais famosos oradores sagrados, a “boca de ouro” de S. João
Crisóstemo: “De todas as bestas ferozes, nenhuma é mais perigosa que a mulher”.
Isto para não perdermos tempo com S.
Paulo, por exemplo, o qual recomenda, na sua epístola aos Coríntios: “Não
permitas à mulher que ensine, nem que tenha domínio sobre o marido, se não que
esteja em silêncio” - isto apesar de na altura em que escreveu a referida
epístola estar a viver à custa de uma rica viúva, que não por acaso veio a ser
santa, Santa Prescília... E isto para não ir para coisas mais arrepiantes, como
essa sinistra recomendação de Santo Agostinho: “Bom será que o homem não toque
na mulher”... A que S. Francisco de Assis, apesar de tudo, retorquia, afirmando
ser “mais fácil caminhar sobre o fogo sem queimar as plantas dos pés, do que
fugir ao contágio das mulheres, conversando com elas”. E passámos por alto
sobre a própria Bíblia, desde o Livro dos Provérbios ao Eclesiastes e às
sentenças de Salomão, para terminarmos com uma tirada de um conhecido santo
espanhol: “A ira mais formidável é a ira da mulher. Ela revolve reinos inteiros
quando está irada. Não há serpente mais fera. Não há dragão mais sanhudo. Não
há harpia mais violenta. Se a mulher chega a irritar-se, não se pode senão
fugir. Ela medita e executa mil patifarias, e jamais sossega sem se vingar.
Natural ou divina, não há lei que ela não atropele para satisfazer os seus
desejos”. É obra! Este, ao menos, não era dos que pensavam que fossemos
passivas e fracas...
Vê-se, assim, que,
qualquer que seja o campo em que a nossa atenção resolva fixar-se,o que
caracteriza a situação da mulher trabalhadora é a exploração mais desapiedada,
a opressão mais desenfreada, a desigualdade, a discriminação, a humilhação e o
vexame.
As mulheres são as
últimas a encontrar emprego, e as primeiras a serem despedidas. O salário da
mulher não é, na esmagadora maioria dos casos, igual ou parecido com o dos
homens para os mesmos lugares. Inclusive naqueles casos em que o salário parece
igual, não há uma igualdade real e efectiva, porque o que sucede é que os
homens foram afastados desses postos de trabalho, procurando outros menos mal
remunerados a que as mulheres não têm acesso, ficando os postos deixados vagos
para elas, mas numa situação de desigualdade salarial efectiva, embora
insusceptível de poder comparar-se. Eu explico: se numa determinada secção de
uma fábrica só trabalham mulheres, o patrão pode afirmar que o salário da
mulher é igual ao do homem; mas nós, mulheres, sabemos que o homem não
aceitaria aquele salário para aquele trabalho. Nestes termos, a desigualdade
salarial por sexo subsiste, mesmo nos lugares onde isso não se vê
imediatamente.
Aliás, a
desigualdade salarial (que existe também entre os homens e entre as próprias mulheres
para trabalho igual) está inclusive fixada nas leis, como, por exemplo, no
diploma que institui o salário mínimo nacional. Desigualdade legal que, apesar
de todas as “promessas de Abril”, continua a existir para além dos problemas
salariais. Isto porque há, nomeadamente, leis que tipificam crimes pelos quais
só praticamente as mulheres podem vir a ser condenadas, como é o caso do
famigerado crime de aborto. E isto para não lembrar que, na aplicação das leis,
os tribunais, as polícias, os gestores e toda a cáfila de agentes da burguesia
as aplicam com toda a brutalidade contra as classes exploradas, mas, mesmo
quanto a estas, têm dois pesos e duas medidas, consoante a vítima é um homem ou
é uma mulher. Basta ver a maneira como na prática é punido o adultério do homem
e o adultério da mulher.
QUE SOLUÇÃO PARA A QUESTÃO DA MULHER?
Nós,
marxistas-leninistas, consideramos a questão da mulher no único quadro em que a
questão pode e deve ser considerada e em que pode e deve ser resolvida. Nós,
comunistas, colocamos a questão da mulher e a sua solução no quadro da luta de
morte que opõe a revolução portuguesa à contra-revolução portuguesa. Colocamos
e solucionamos esse assunto no quadro da luta de classes, no âmbito da
revolução proletária, no terreno da luta dos explorados e dos oprimidos contra
os exploradores e os opressores. Em suma, no quadro da guerra do Trabalho
contra o Capital.
O movimento
revolucionário das mulheres trabalhadoras pela sua emancipação, quer elas
tenham disso consciência ou não, é uma parte indissociável do movimento
revolucionário do nosso povo e da revolução socialista. Mas é na medida em que
nós, comunistas, conseguirmos, pela nossa acção empenhada e entusiástica, fazer
compreender isso mesmo à massa das mulheres em luta que a libertação das
mulheres ficará não apenas no seu horizonte, mas ao alcance das suas mãos e das
suas armas.
Não é, pois, por
sectarismo, como pretendem algumas pessoas (até dentro do nosso Partido), que
nós, comunistas, nos erguemos com firmeza e intransigência contra toda e
qualquer ideia que queira colocar a questão da mulher e da luta pela sua
emancipação fora do quadro em que nós a colocamos. É que nós estamos convictos,
com base nos ensinamentos do marxismo e na experiência histórica da revolução
proletária e da ditadura do proletariado, que a luta da mulher pela sua
emancipação não tem saída senão como componente indissociável da revolução
socialista. É porque sabemos, como sabem todas as mulheres conscientes, que
qualquer desvio nesta matéria, qualquer pactuação com os pontos de vista
revisionistas, liberais e democráticos tem inevitavelmente como consequência a
perpetuação da escravidão da mulher.
A nossa primeira
tarefa é, assim, uma tarefa ideológica, de combate implacável a todas as
teorias, concepções, ideias e pontos de vista estranhos aos interesses da
classe operária e da luta pela libertação da mulher. Uma tarefa de combate a
tudo isso, e de divulgação da concepção proletária do mundo, do materialismo
científico, do marxismo-leninismo, entre as amplas massas das mulheres
trabalhadoras, antes de tudo, sobretudo e para além de tudo, entre as mulheres
operárias das grandes fábricas e das grandes concentrações industriais.
A nossa segunda
tarefa é uma tarefa de organização: de organização das operárias, na sua
inclusão no partido dos comunistas, da sua militância activa nas fileiras do
proletariado revolucionário. E não apenas de organização das mulheres operárias
no partido, mas das mulheres avançadas de todos os outros sectores do povo.
Convirá aqui recordar
que, na sociedade portuguesa actual, o único lugar, a única instituição onde a
mulher tem por direito próprio e de parte inteira o mesmo estatuto do homem é o
nosso Partido. No partido dos comunistas não há direitos e deveres das mulheres
que não sejam direitos e deveres dos homens, não há nenhum processo de assunção
de responsabilidades que não seja o mesmo para os membros dos dois sexos.
É evidente que não
negamos nem escamoteamos o facto de que há também contradições entre os dois
sexos nas fileiras do nosso Partido. Isso resulta do peso e da força que as
ideias reaccionárias dominantes na sociedade a respeito da mulher - ideias que
têm atrás de si um longo percurso histórico de mais de três mil anos - exercem
na mente dos nossos camaradas: dos homens sem dúvida, mas igualmente das
mulheres. Porque não me sentiria bem como mulher se, em vez de apelar a que as
minhas companheiras se ergam para assumir o lugar que é seu, se levantem da
humilhação e do vexame seculares chamando a si as responsabilidades que lhes
competem, se unam para meter na linha da revolução e da igualdade, desde os
seus maridos aos seus pais passando pelos seus companheiros de partido; porque
não me sentiria bem como mulher, dizia eu, se, em vez de apelar a que as
mulheres sejam gente, me limitasse a condenar, como condeno apesar de tudo e
veementemente, as ideias erradas que manifestem alguns homens do partido, ou
estigmatizar os desvios que à sua linha geral na nossa acção sempre se
verificam.
Se o partido tem,
como tem efectivamente, um estatuto que é igual para os homens e para as
mulheres, as mulheres só se sentirão discriminadas se quiserem, só serão
preteridas se deixarem, só serão humilhadas se gostarem.
É duro para uma
mulher ser secretária duma célula - diz-se. Mas o que é que as mulheres
esperam? Que os homens lutem, para então elas lutarem? Ou devem esperar de si
mesmas que elas próprias lutem, para o que está mal poder mudar? Luta que, em
todo o caso, terá de ser prosseguida pelos métodos com que os comunistas
solucionam sempre as contradições no seio do povo: pelo método da crítica e da
auto-crítica, com vista a reforçar o nosso partido comunista, o partido dos
homens e das mulheres revolucionários. O partido é o nosso farol, mas às vezes
à porta do farol faz escuro. O partido é os olhos da classe operária; mas a
única coisa que os olhos não vêem é precisamente a eles mesmos. Por isso, pode
ser que haja erros e até desvios; mas se as mulheres souberem acima de tudo
defender o partido, o marxismo-leninismo, a classe operária e a revolução, ou
os erros a respeito delas serão corrigidos, ou os desviacionistas, se os
houver, não permanecerão muito tempo no partido que é o partido das mulheres
comunistas.
A nossa terceira
tarefa é a tarefa de dirigir, quanto as nossas forças o permitam, a luta
revolucionária das mulheres, chamando-as a participar e a executar o
derrubamento da burguesia e do sistema capitalista e a pôr de pé uma sociedade
socialista, a ditadura do proletariado, rumo ao comunismo, à sociedade sem
classes, à sociedade sem exploração do homem pelo homem e, portanto, à
sociedade sem exploração e opressão da mulher.
Nós, comunistas,
nunca mercadejaremos com esta tarefa, com este objectivo político fundamental.
Nós não enganaremos as mulheres nem deixaremos que elas sejam enganadas por
ninguém. Nós queremos que as mulheres saibam, desde hoje e desde agora, que a
luta pela sua emancipação é a luta da classe dos proletários pelo socialismo e
pelo comunismo. Nós faremos unidade com todas as forças políticas que lutarem
por transformações democráticas na situação da mulher, que quiserem lutar
contra a desigualdade, a discriminação, a humilhação, a violência e o vexame de
que as mulheres são vítimas. Estamos empenhadas na unidade com todos os
sectores democráticos, e, inclusive, empenhadas na unidade com os movimentos
democráticos de mulheres. Mas não alienaremos, em prol dessa unidade que
achamos desejável e urgente, a defesa dos nossos objectivos políticos últimos e
a propaganda deles entre a massa das mulheres.
Da mesma maneira,
a nossa quarta tarefa - que é a de encabeçar, influenciar e organizar a luta
das mulheres pelas suas reivindicações imediatas - subordinamo-la, nós,
comunistas, à estratégia, à táctica e aos interesses profundos da revolução
proletária. E não esconderemos isso, nem das mulheres nem de ninguém.
A este propósito,
devemos nós, mulheres comunistas, intensificar toda a nossa acção, sob a
direcção do nosso Partido e do seu Comité Central, no sentido de lançar um
grande movimento de luta da mulher trabalhadora pelo pão, contra o desemprego,
contra os contratos a prazo, contra a discriminação salarial, porque esta é uma
das lutas a que mais eminentemente as mulheres trabalhadoras aspiram, e porque
essa luta concreta, se dirigida por nós, comunistas, encorajará de forma
prática as mulheres a transformarem-se de escravas dóceis do capital em
soldados conscientes da luta de classes.
Assim também
devemos lutar pela criação das condições e pelo lançamento de um movimento de
âmbito nacional pelo direito ao aborto, contra a violência exercida sobre a
mulher na família e na sociedade, por uma repressão clara e inequívoca dos
chamados crimes sexuais de que a mulher é objecto, pela protecção e segurança
social da mulher-mãe e da mulher idosa e pela implantação dos equipamentos
sociais que facultem à mulher o cumprimento da sua actividade na produção
social, na cultura, na política e na ciência.
A libertação da
mulher não se alcança pela obtenção da vitória das reivindicações imediatas que
acabamos de formular, ou mesmo pela obtenção da vitória em todas as
reivindicações imediatas que se possam imaginar. Não subestimamos a importância
desta luta. Não menosprezamos o alcance da vitória nela. Achamos até que muito
pouco temos feito neste campo. E que é preciso fazer mil vezes mais. Mas
insistimos em que, se por aí se prepara o terreno para uma certa mobilização de
massas das mulheres, esse movimento só por si não é nada, nem levará só por si
a uma verdadeira emancipação. É preciso ligar a luta por objectivos imediatos à
luta pelos objectivos finais de todo o movimento revolucionário proletário.
Porque - nunca o
esqueçamos - a emancipação, a libertação da mulher tem dois aspectos
fundamentais, e nenhum deles é imediatista nem espontâneo: a participação da
mulher na produção social e a libertação de todos os explorados da exploração
capitalista. Este é o caminho. As lutas imediatas, se bem dirigidas e bem
organizadas, impulsionarão o exército dos explorados e das exploradas a
percorrer esse caminho. Porque é nele e por ele que nós, mulheres, deixaremos
de ser um objecto, como hoje o somos, e seremos um dia o sujeito dos nossos
próprios destinos.
O MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO DAS MULHERES TRABALHADORAS E AS
TAREFAS DOS COMUNISTAS
Camaradas
É com muita emoção
que tomo a palavra diante da I Conferência Nacional da União das Mulheres
Comunistas.
Emoção que provém
do facto de que, pela primeira vez no decurso da sua história, o nosso Partido,
num alarde de confiança ilimitada na capacidade política das mulheres
comunistas, nos comete a honrosa mas pesada tarefa de examinarmos nós próprias
a situação actual da mulher trabalhadora portuguesa e o estado presente do seu
movimento revolucionário, e de definirmos nós mesmas as medidas de fundo que
permitam fazer do movimento de libertação da mulher um movimento revolucionário
consequente, fiel aos princípios do marxismo-leninismo, aos interesses da
revolução proletária, aos ideais do socialismo e à causa do comunismo.
E emoção ainda,
porque tenho, como todas as minhas companheiras, a consciência plena do que
pode e deve significar para a mulher operária e para a mulher camponesa, para
toda a mulher trabalhadora explorada e oprimida, a actividade política que aqui
iremos desenvolver, se, segundo é minha convicção, nos soubermos manter fiéis
ao mandato do nosso Partido e às aspirações das mulheres portuguesas.
É sob esta emoção
e com este voto que saúdo a União das Mulheres Comunistas, a nossa I
Conferência Nacional, as mulheres marxistas-leninistas e as camaradas
delegadas, a quem pedimos e de quem nos permitimos esperar que contribuam, com
o seu labor e o seu entusiasmo, para o êxito completo dos nossos trabalhos e
para a vitória dos nossos propósitos.
Saúdo - e peço que
todas o façamos com calor e carinho - o nosso Partido e o seu Comité Central,
não apenas porque confiaram em nós sem reservas, mas sobretudo porque nos
orientaram com solicitude, porque nos estimularam com camaradagem e porque nos
souberam persuasivamente mobilizar para vencer os obstáculos e as resistências
que se nos foram deparando no caminho que nos trouxe aqui.
E saúdo também,
ainda em nome da Comissão Executiva e em meu próprio nome, as mulheres do nosso
povo, exploradas e oprimidas, discriminadas e perseguidas, humilhadas e
vexadas, vítimas da violência e da miséria de todo o sistema capitalista
reaccionário e despótico, mas mulheres do povo que, sempre em toda a parte, têm
sabido erguer-se para lutar e para vencer.
I. A ACTUALIDADE DA QUESTÃO FEMININA E A OPORTUNIDADE E
SIGNIFICADO DA CONFERÊNCIA
Camaradas
A questão feminina
e todos os problemas que, de perto ou de longe, se prendem com a situação da
mulher adquiriram de súbito uma enorme acuidade, e ganharam tamanha actualidade
que não há nenhuma classe social nem nenhum partido político que não estejam,
neste momento e em Portugal, empenhados em definirem-se ou em pronunciarem-se
sobre a matéria. A matéria, aqui, somos nós, mulheres.
De que resulta e
como se explica este interesse súbito, estranho até e, na maior parte dos
casos, mais que suspeito das diversas classes e dos vários partidos sobre a
questão da mulher?
Resulta e
explica-se pelo facto de que, para além de todos os problemas políticos,
económicos e sociais, graves e reclamando uma solução urgente, que têm todos os
trabalhadores e todas as trabalhadoras, nós, mulheres do povo, temos montanhas
de problemas próprios e específicos que as classes reaccionárias e os partidos
burgueses e oportunistas não podem mais continuar a esconder ou a passar por
cima deles, como, com mais ou menos sucesso, conseguiram fazer até aqui.
Resulta e
explica-se pelo facto de que as mulheres do nosso povo sabem já claramente o
que não querem, do mesmo passo que sabem cada vez mais nitidamente o que
pretendem, mostrando com coragem, determinação e firmeza crescentes que se
preparam para irromper como um furacão na cena da luta de classes e decidir aí,
como sujeitos conscientes, dos destinos da sua luta e do seu próprio futuro.
Resulta e
explica-se, finalmente, pelo facto de que a mulher operária e a mulher
camponesa, a massa das mulheres do povo, estão a assimilar a um ritmo cada vez
mais acelerado a sua própria experiência de luta do período revolucionário de
1974 a 1975, e a prepararem, quer disso se tenha consciência quer não, o
terreno político e organizativo para um novo assalto mais clarividente e mais
resoluto ao poder dos monopolistas e dos latifundiários, quando o momento for
oportuno.
É perante este
quadro geral da situação real da mulher que se movimentam a revolução e a
contra-revolução, a classe operária e a burguesia, os comunistas, de um lado, e
os partidos burgueses, revisionistas e oportunistas, do outro.
A classe dos
capitalistas e latifundiários, com todos os seus partidos, agentes e lacaios,
mobiliza-se e organiza-se para tentar recuperar sobre a mulher e sobre a
família o poder e a influência nefasta que tinha conseguido antes do
derrubamento do regime fascista. A classe dominante, com esta finalidade
restauracionista, lançou já na batalha política e ideológica pela conquista da
mulher a maior parte dos instrumentos de que dispõe, desde a Comissão da
Condição Feminina ao movimento social-fascista das mulheres, desde a Igreja
católica e demais confissões obscurantistas à Escola reaccionária e caduca e às
sociedades pseudo-científicas.
Em oposição frontal
à classe dominante e aos seus partidos, erguem-se a classe operária e o Partido
Comunista dos Trabalhadores Portugueses, lutando por desmascarar os planos
maquiavélicos do inimigo contra a mulher e procurando organizar em bases
sólidas o movimento revolucionário das mulheres trabalhadoras.
É neste contexto
que se realiza a I Conferência Nacional da União das Mulheres Comunistas.
A sua oportunidade
política é, assim, indiscutível, e é, desde já, por demais evidente. Mas é o
seu significado e alcance históricos que estimaríamos ver entendidos por todas
nós, mulheres comunistas, e por toda a nossa Conferência. Não deveria ser
preciso que se passassem anos, para então vermos e compreendermos com
objectividade o que estamos aqui a fazer hoje. É que, se desgraçadamente nos
faltasse nesta Conferência a perspectiva política mais vasta sobre o
significado e alcance futuro do nosso trabalho, talvez que então, mais tarde,
nos viéssemos a penitenciar sem remédio de, embora tendo sido capazes de reunir
a I Conferência Nacional da União das Mulheres Comunistas, não termos sido
suficientemente sagazes para lobrigar a esta distância o que a classe operária,
a revolução portuguesa e a mulher trabalhadora exigem agora de nós.
Para que não nos
falte esta perspectiva nem a Conferência fique a olhar para a ponta dos
sapatos, é bom recordar aqui que nós, comunistas, no II Congresso do nosso
Partido e numa altura em que o debate generalizado sobre os problemas da mulher
quase não ocupava ninguém, trouxemos para a ordem do dia da luta política, com
perspicácia e previsão inquestionáveis, não apenas a necessidade e a urgência
desse debate, mas sobretudo a necessidade de organizar rapidamente as mulheres,
e em primeiro lugar as mulheres comunistas, para estarmos em condições de dirigir
o movimento revolucionário feminino e triunfar na luta que se antevia.
Estamos, pois,
hoje reunidas, camaradas, para analisar a situação da mulher trabalhadora e
para definir o conteúdo, as medidas políticas, os métodos e as formas da sua
mobilização, com a finalidade de dar uma orientação revolucionária correcta à
luta da mulher do povo.
Estou certa que
nos iremos esforçar por cumprir a tarefa
II. A SITUAÇÃO ACTUAL NO MUNDO E AS TAREFAS DOS
MARXISTAS-LENINISTAS
Camaradas
A nossa
Conferência é uma conferência comunista, realizada sob a égide de um partido
operário comunista e levada a efeito por mulheres comunistas
marxistas-leninistas. A nossa concepção do mundo, na qual o Partido nos educa e
na qual devemos educar as massas trabalhadoras, é o internacionalismo
proletário. Nada do que se passa no mundo nos é estranho, porque também não é
estranho à nossa classe operária. Rejeitamos o chauvinismo, o nacionalismo
estreito, e rejeitamo-lo em nome daquela concepção científica do mundo que faz
da nossa classe operária um regimento do exército mundial do proletariado, e da
revolução portuguesa uma parte integrante da revolução mundial proletária.
Somos mulheres, e
queremos, sem dúvida, organizar em bases sólidas o movimento de libertação da
mulher portuguesa. Ora, a mulher trabalhadora do nosso país necessita de pão e
de trabalho, de saúde e de igualdade, de liberdade e socialismo. Mas, para
atingir tudo isso, tem de ser internacionalista, tem de compreender o que é o
internacionalismo proletário e tem de lutar por divulgá-lo e impô-lo na
consciência das massas.
Tem de romper
resolutamente com a estreiteza e a mesquinhez do horizonte doméstico. Para além
de saber o que se passa em casa e de conhecer o que sucede na fábrica, tem de
compreender o que se passa no país e interpretar o que se passa no mundo.
O mundo
encontra-se em vésperas, conforme aliás sublinhou o II Congresso Nacional do
Partido, de acontecimentos extremamente importantes. Os países imperialistas e
as classes reaccionárias locais no Poder preparam afanosamente uma nova guerra
mundial contra os povos, no sentido de redividirem e repartilharem entre si as
riquezas do globo e a força de trabalho das massas populares, ao mesmo tempo
que criam novos mercados para investirem os seus capitais e impingirem as suas
mercadorias, arrecadando lucros e super-lucros à custa da rapina, do
desemprego, da fome e da miséria das massas populares.
Muita gente do
nosso povo ainda não compreende bem que uma nova guerra mundial
inter-imperialista se prepara, e que essa guerra é cada vez mais inevitável e
está cada vez mais iminente. Outras pessoas aceitam que é verdade que as
potências imperialistas preparam a guerra a todo o vapor, mas que ela não
atingirá Portugal, que se restringirá ao Médio Oriente ou ao centro da Europa e
que, portanto, não revestirá uma dimensão mundial. Por outro lado, sectores
inteiros da população não atinam ainda com os objectivos guerreiros e
militaristas ocultos que, sob a fraseologia do “pacifismo” e da “luta pela
paz”, os países imperialistas e social-imperialistas promovem, precisamente
para desarmarem os povos e prepararem melhor a guerra.
Lenine ensinou-nos
que “o imperialismo é a guerra”, o que quer dizer que, desde que o capitalismo
chegou ao seu estádio superior e último de imperialismo, a guerra - e não
apenas as guerras locais e localizadas, mas a guerra ao nível de todo o globo -
é um efeito directo das leis internas do próprio sistema capitalista.
Há duas potências
imperialistas que dirigem os preparativos da guerra: os Estados Unidos da
América e a União Soviética. Todos os outros países capitalistas, pelo menos a
generalidade deles, terão de alinhar atrás de um ou de outro desses chefes da
reacção mundial, tentando arrastar a classe operária e os povos desses países
para a carnificina da guerra, pois que as burguesias dos países a que me
reporto não têm outra alternativa de sobrevivência, senão a que lhe impõe o
sonho vão de beneficiar das migalhas do banquete da super-potência vencedora.
O imperialismo e o
social-imperialismo vivem uma crise extremamente profunda. Todas as tentativas
feitas pelos ideólogos do imperialismo e do social-imperialismo no sentido de
fazerem passar a crise mundial desse sistema como crise superficial ou limitada
a este ou àquele sector (ontem, o sector monetário; hoje, o sector da energia;
amanhã, o sector das matérias-primas) têm fracassado por completo. A nova
administração imperialista ianque teve de reconhecer que a crise actual é a
maior e a mais profunda de todas, depois da crise de 1929 e igual a ela - crise
de 1929 que foi a que desembocou directamente na guerra mundial de 1939-1945.
Aliás, o programa económico e militar da pandilha Reagan decalca e reproduz
alargadamente o programa económico e militar do nazismo nos meados dos anos
trinta.
Há doze milhões de
desempregados nos Estados Unidos; há dez milhões de desempregados no Mercado
Comum; há cinco milhões de desempregados no Japão; há um milhão de
desempregados em Espanha, meio milhão em Portugal, quase dois milhões em
Inglaterra. A inflação - quer dizer, o índice de pagamento da crise do
capitalismo pelas massas - é superior à taxa de dez por cento ao ano na
esmagadora maioria dos países capitalistas que integram a organização
imperialista conhecida pela sigla de OCDE. E quanto mais miséria para o povo,
mais dinheiro é retirado dos orçamentos da assistência, da saúde, da educação,
da cultura e da habitação social para o orçamento da guerra e da agressão.
Pela primeira vez
desde que existe, o social-imperialismo revisionista soviético não conseguiu esconder
a crise profunda e aguda que sacode o seu sistema, igualmente imperialista.
Milhões de homens e mulheres dos países do COMECON fazem todos os dias bicha
para encontrar a carne ou o pão. Ministros atrás de ministros são demitidos
quase todos os meses das pastas económicas dos governos da URSS ou que ela
controla. O desemprego e o subemprego atingem proporções idênticas às dos
países capitalistas. A dívida externa sobe nalguns casos, como é o da Polónia,
ao nível da bancarrota. A emigração é oficialmente fomentada, designadamente na
China e na URSS. E enquanto a inflação sobe e falta o pão, não falta dinheiro
nos orçamentos da agressão a países estrangeiros, do desenvolvimento das
indústrias de guerra ou do reforço das polícias.
Mas o que
caracteriza a actual situação no mundo, que é de crise aberta e geral do
imperialismo e do social-imperialismo, não é apenas a preparação e a iminência
de uma nova guerra à escala do globo. O que caracteriza a actual situação no
mundo é também um amadurecimento visível das condições da revolução proletária
e da revolução democrática nacional na generalidade dos países capitalistas ou
dos países dominados pelo imperialismo. Um pouco por toda a parte e de maneira
cada vez mais impetuosa, a classe operária e as massas populares erguem-se
contra os seus governos reaccionários e para os derrubar. Em Portugal, na
Espanha, na Polónia, na Hungria, na Turquia, na Grécia, no Irão, na Guatemala,
no Salvador e numa quantidade considerável de outros países, os povos
levantaram-se, muitas vezes em armas, contra as classes dominantes
exploradoras, e tudo isto num intervalo de meia dúzia de anos. Uma tal
realidade comprova que as condições objectivas da revolução proletária
socialista e da revolução democrática nacional são hoje melhores do que nunca,
e que nunca como hoje o sistema mundial do capitalismo se encontrou tão
vulnerável.
Devemos, assim,
adoptar uma atitude consequente e de princípio, marxista-leninista, perante as
realidades actuais do mundo. Devemos denunciar por toda a parte a
inevitabilidade da guerra enquanto houver imperialismo, bem como a iminência da
guerra que está em preparação acelerada, chamando as massas a organizarem-se
séria e metodicamente com o fim de se recusarem a servir de carne para canhão
em holocausto dos interesses de rapina e de pilhagem do imperialismo e do
social-imperialismo. Devemos denunciar os perigos reais que representam a
participação de Portugal na NATO e o empenhamento cada vez maior da burguesia
portuguesa nos preparativos militares e nos empreendimentos de guerra da
Aliança Atlântica, política anti-patriótica que está a acarretar a completa
submissão do nosso país aos interesses do imperialismo ianque. Devemos
organizar séria e metodicamente a luta do nosso povo pela saída de Portugal da
NATO e contra as bases militares e os depósitos de armas estrangeiras no
território nacional, precisamente mostrando a urgência dessa luta como forma de
impedir a participação do nosso povo numa guerra que não é a dele, mas sim dos
seus inimigos.
E devemos saber
mostrar a saída correcta para a situação que se nos depara. O nosso povo não
deve alimentar nem ideias pacifistas nem ideias capitulacionistas na questão da
guerra. Deve preparar-se para a revolução, deve organizar-se solidamente, deve
robustecer-se de energia e de clarividência. A revolução pode impedir a guerra,
e só a revolução a pode impedir. Nós somos pela guerra: não pela guerra dos
imperialistas, obviamente, mas pela guerra revolucionária das massas. Devemos e
podemos impedir a guerra dos imperialistas com a guerra do proletariado, isto
é, com a revolução socialista no nosso país. Mas, se as nossas condições
objectivas e subjectivas porventura não permitirem que seja a revolução a
impedir a guerra, então também devemos estar preparados para que a guerra
desencadeie a revolução, quer dizer, para que o nosso povo transforme a guerra
que os imperialistas lhe querem impor numa guerra civil revolucionária, que
ponha termo à exploração e à opressão no nosso país.
E nós, mulheres
comunistas e mulheres do povo, temos um importantíssimo papel a cumprir nesta
matéria. Nós, mulheres, devemos constituir-nos num sector avançado de denúncia
e de combate à guerra imperialista que se prepara, de denúncia e de combate às
patranhas pacifistas que o partido social-fascista, a soldo dos novos czares do
Kremlin, pretende impingir às massas trabalhadoras, sobretudo às massas
femininas. Nós, mulheres comunistas, devemos apelar às mulheres do nosso povo,
e organizá-las, para que constituam um sector avançado na luta pela saída de
Portugal da NATO, na luta contra as bases militares e os depósitos de armas
estrangeiras, na luta, em suma, pela independência nacional.
Em vez de
capitular perante as ideias pacifistas ou perante o temor da guerra, como
pretendem os reaccionários de todos os matizes, nós, mulheres comunistas e
mulheres do povo, devemo-nos, ao contrário, constituir num destacamento
avançado da luta para derrubar pelas armas a burguesia que nos explora.
Invocámos a nossa
concepção internacionalista proletária para fundamentar a nossa atitude de
princípio perante as lutas dos trabalhadores dos outros países, na situação
actual do mundo. E, não por acaso, chegámos à necessidade da nossa própria
revolução e da defesa da independência nacional. É que, como comunistas, temos do
internacionalismo proletário uma noção actuante e uma compreensão concreta. Ser
internacionalista não consiste apenas em apoiar sem reservas as lutas
revolucionárias que as massas populares prosseguem nos outros países. Nem
consiste só em considerar que a nossa luta, a luta dos operários dos outros
países e a luta de todos os povos do mundo se integram numa só luta una e
indivisível - a revolução mundial proletária. Ser consequentemente
internacionalista é, além disso, lutar com todas as forças por realizar as
tarefas da revolução no nosso próprio país. É nisso que consiste a maior ajuda
que podemos dar aos trabalhadores dos outros países e aos povos irmãos do povo
português. E é, aliás, isso que eles, acima de tudo, esperam de nós.
Mas o nosso
internacionalismo, de nós, mulheres comunistas, tem ainda uma nota muito
especial, e que é a solidariedade militante que une o movimento revolucionário
das mulheres portuguesas ao movimento revolucionário das mulheres de todo o
mundo.
As mulheres
representam mais de metade da população mundial. Mas são precisamente a metade
(refiro-me às mulheres do povo) mais explorada e mais oprimida. São a metade
que trabalha mais e ganha menos, que conhece maior desemprego e é a maior
vítima dos despedimentos, que sofre da desigualdade mais vexatória em relação
ao homem e se sente discriminada em todo o lado. Se é verdade que a situação é
genericamente a mesma para a mulher em todos os continentes, é sobretudo
verdade que as mulheres dos países da África, da Ásia e da América Latina vivem
em condições tais que são quase inacreditáveis, mesmo para nós portugueses,
povo subdesenvolvido na Europa.
Elementos
recentemente divulgados por agências especializadas das Nações Unidas indicam
que na África e na Ásia, por exemplo, morre em cada ano meio milhão de mulheres
por causas relacionadas com a maternidade. Na América Latina, o aborto ilegal é
o principal assassino das mulheres jovens, entre os quinze e os trinta e nove
anos de idade. Apesar de ilegal e, precisamente por isso, tão barbaramente
mortal para a mulher, ainda assim, em cada dia que passa, cento e vinte mil
mulheres recorrem ao aborto sem a mínima espécie de assistência sanitária
segura. Principalmente para as camponesas, as condições de trabalho são
indiscritíveis e inimagináveis. Por exemplo, no Paquistão - mas neste aspecto
há muitos paquistões em Portugal - os números mostram que a mulher camponesa
trabalha mais de catorze horas por dia, sem qualquer espécie de remuneração, em
trabalhos chamados de dona de casa e outros extremamente árduos e pesados que
lhe andam associados: cozinham, limpam, lavam, costuram, alimentam animais e
levam a comida aos homens, trabalham no campo, acartam água, recolhem esterco
para utilizarem como combustível e tratam das crianças e dos velhos.
Este exército de
mulheres desumanamente exploradas e oprimidas são irmãs das mulheres do nosso
povo, são nossas irmãs de classe. A nossa luta é a mesma em qualquer parte do
globo e devemo-nos solidariedade internacionalista militante umas às outras.
Porque quando as mulheres tomarem consciência dos seus direitos, lutarem pelas
suas justas aspirações revolucionárias e tiverem uma clara percepção da unidade
fundamental de interesses do seu movimento em todos os países do mundo, as
classes dominantes têm os dias contados.
III. OS PROBLEMAS ACTUAIS DO MOVIMENTO COMUNISTA
INTERNACIONAL E A NOSSA ATITUDE PERANTE ELES
Camaradas
Ao mesmo tempo que
amadurecem visivelmente as condições objectivas da revolução num grande número
de países, inclusive na velha Europa; ao mesmo tempo que o imperialismo
atravessa uma crise de proporções inauditas - ao mesmo tempo que estas
realidades se impõem aos nossos olhos quase sem discussão possível, a classe
operária sofreu nos últimos vinte e oito anos duas derrotas muito sérias, com
as restauração do capitalismo na União Soviética, depois da morte de Estaline,
e com a restauração do capitalismo na China, depois da morte de Mao Tsé-tung.
Em consequência
dessas duas derrotas, o movimento comunista internacional vive hoje uma
situação preocupante, e milhões de homens e mulheres trabalhadores em todo o
mundo interrogam-se com angústia sobre os destinos da revolução, do socialismo
e do comunismo.
Nós, mulheres
comunistas, e a nossa Conferência estamos conscientes não só de que este
assunto nos diz directamente respeito, como diz respeito a toda a nossa classe
operária e à causa revolucionária de todo o nosso povo.
Revisionistas e
oportunistas de todas as cores, depois de terem feito o mal à revolução, fazem
agora a caramunha, e intentam sem êxito convencer a classe operária e os povos
revolucionários que o marxismo-leninismo atravessa uma crise sem regresso e que
deve ser abandonado ou revisto, o que vem a dar no mesmo.
Nós, mulheres
comunistas, temos uma posição diametralmente oposta e absolutamente antagónica
com a posição dos revisionistas e demais oportunistas.
Para nós, o que
está em crise não é o marxismo-leninismo, mas o revisionismo e o oportunismo; o
que está em crise não é a revolução, mas a contra-revolução; o que está em
crise não é a causa nem o ideal do socialismo e do comunismo, mas a causa e o
destino do capitalismo e do imperialismo.
Precisamente
porque a crise do imperialismo é uma crise geral inultrapassável, precisamente
porque esse sistema de exploração e de opressão, de guerra e de rapina marcha
para a derrocada final e está com os pés para a cova, precisamente por isso
desespera em planos, manobras, e actos que intentam restaurar o capitalismo nos
países que haviam instaurado o socialismo, e a ditadura da burguesia nos países
que viviam sob ditadura do proletariado.
Nos meados dos
anos cinquenta, quando a ditadura do proletariado e o socialismo foram
derrubados na pátria de Lenine e de Estaline, também os imperialistas e os
oportunistas de todas as tendências cantaram vitória e encomendaram o sermão do
enterro do marxismo. Passados os primeiros momentos de perplexidade e confusão
entre a classe operária dos diversos países e no seio do movimento comunista
internacional, os marxistas-leninistas de todo o mundo, sob a direcção de Mao
Tsé-tung e do glorioso Partido Comunista da China, redobraram de esforços,
recuperaram da derrota temporária e encetaram um novo avanço revolucionário em
toda a parte.
O camarada Mao
Tsé-tung examinou as causas profundas da derrota da ditadura do proletariado na
União Soviética, e formulou os princípios que armaram o proletariado
revolucionário de todos os países e os comunistas de todo o mundo, princípios
que, elevando o marxismo-leninismo a uma etapa nova e superior, permitiram derrubar
os obstáculos que entretanto surgiram no avanço da revolução proletária e deram
um novo impulso à revolução em todos os continentes e uma confiança ainda mais
robusta às classes trabalhadoras.
A restauração do
capitalismo na China constituiu, sem dúvida, um pesado golpe para o movimento
comunista internacional, para a revolução proletária mundial e para a revolução
democrática nos países coloniais, semi-coloniais, neo-coloniais e dependentes.
É natural que os imperialistas, os revisionistas e todos os oportunistas
procurem cantar de galo, encomendem novo sermão para o enterro do
marxismo-leninismo e se lancem freneticamente numa operação de lavagem ao
cérebro das massas exploradas e oprimidas.
Mas não
conseguirão nada de definitivo e duradouro, qualquer que seja a confusão que
possam passageiramente estabelecer. Só conseguirão mostrar, aos olhos
experimentados do proletariado revolucionário, que são eles, imperialistas, e
não os operários quem não tem futuro, que são eles, imperialistas, quem se
encontra nas vascas da agonia.
É que, qualquer
que seja a dimensão da derrota temporária imposta pela restauração do
capitalismo na China, nós, marxistas-leninistas e os proletários de todos os
países, encontramo-nos hoje numa situação incomparavelmente mais favorável do
que nos encontrávamos na altura do golpe contra-revolucionário de Kruchov.
Hoje, dispomos do legado teórico de Mao Tsé-tung, arma com que estamos em
condições de compreender o que se passou na China e em condições de ultrapassar
com segurança as consequências nefastas do golpe de Hua Kuo-feng / Teng
Siao-ping. E o facto de que a China, após o golpe de Estado revisionista, tenha
mergulhado numa crise sem precedentes e de que as massas populares chinesas
tenham tão rapidamente encetado lutas de enorme significado contra a camarilha
revisionista, prova que a classe operária está hoje bem melhor armada para
lutar do que na época do golpe de Kruchov.
A experiência
histórica do proletariado mostra-lhe que, nas vésperas das grandes crises e
convulsões do imperialismo, a burguesia, através dos agentes que tem
infiltrados no seio do movimento operário e nas fileiras do movimento
comunista, desencadeia toda a espécie de golpes e promove toda a casta de
perturbações, para que, na altura da eclosão inevitável da crise, o
proletariado esteja ideológica, política e organizativamente desarmado e não
possa aproveitar até às últimas consequências as excelentes condições
revolucionárias que acompanham toda a crise grave do capitalismo. Quem já
esqueceu a barafunda criada pela burguesia no movimento operário e no movimento
comunista, nas vésperas da primeira grande guerra mundial? Burgueses de todas
as tonalidades propalavam que o marxismo tinha dado a alma ao criador: mas,
escassos meses depois, era a guerra que eclodia em toda a parte; e, em 1917,
também só alguns meses depois, era o socialismo e a ditadura do proletariado na
União Soviética.
Não nos deixemos,
pois, nem intimidar nem iludir. O futuro é da revolução proletária, da ditadura
do proletariado, do socialismo e do comunismo. A burguesia, essa não tem
qualquer futuro.
Por isso, nós,
mulheres comunistas, reafirmamos solenemente a superioridade histórica do
marxismo-leninismo, ciência revolucionária do proletariado. Reafirmamos a nossa
convicção de que o socialismo e o comunismo são a única esperança e a única
certeza para os explorados e oprimidos do mundo inteiro.
Nós, mulheres
comunistas, reafirmamos que é cada vez mais necessário um partido comunista
autêntico, baseado no marxismo-leninismo e no maoismo, forte, disciplinado,
organizado segundo os princípios do centralismo democrático, bem implantado na
classe operária e nas massas, porque sem um tal partido, sem um tal
estado-maior proletário de combate, é a burguesia que vence, mas com um partido
assim é a classe operária e todo o povo que triunfam.
Nós, mulheres
comunistas, reafirmamos a nossa fidelidade de combate pela ditadura do
proletariado, porque é a ditadura do proletariado o instrumento para derrotar a
ditadura da burguesia, impor e defender o socialismo e levar a humanidade ao
comunismo.
Nós, mulheres
comunistas, reafirmamos a nossa fidelidade à via aberta pela Grande Revolução
Socialista de Outubro, que é a via da tomada do poder político pelas armas,
pela luta armada das massas, pela guerra revolucionária do Trabalho contra o
Capital.
Nós, mulheres
marxistas-leninistas, reafirmamos a nossa fidelidade ao legado teórico de Mao
Tsé-tung, pois que, a partir dele, sabemos que o socialismo é um longo período
histórico, durante o qual continuam a existir classes, contradições de classes
e luta de classes; que, por todo esse período, é preciso reforçar a ditadura do
proletariado, a fim de evitar que os intuitos restauracionistas da burguesia
alcancem qualquer êxito; porque a partir de Mao Tsé-tung sabemos quais são as
causas e as condições em que se gera a burguesia nos próprios países
socialistas e sob ditadura do proletariado e ficámos a saber que os chefes da
burguesia nestes países são aqueles indivíduos que dentro do partido comunista
e nos órgãos da ditadura do proletariado seguem não o marxismo e a via do
socialismo, mas o revisionismo e a via do capitalismo; porque a partir dele
sabemos que há que levar a revolução socialista até ao fim, que a revolução não
se pode limitar à base económica, mas que tem que ir a todos os domínios da
superestrutura, à ideologia, à arte, à cultura e à ciência; porque sabemos que
a Grande Revolução Cultural Proletária foi um acontecimento sem precedentes na
história, mas que permanece justa e que deve ser desencadeada sempre e todas as
vezes que for necessário para vencer a resistência dos capitalistas e as suas
tentativas de restauração do capitalismo.
Armados destes
princípios, venceremos seguramente. E os acontecimentos de enorme alcance na
véspera dos quais se encontra o nosso país e o mundo encarregar-se-ão de
mostrar, a quantos hoje possa, alimentar dúvidas, que é no marxismo-leninismo
que se acha o caminho da salvação da classe operária e dos povos do mundo.
Por isso, nós,
mulheres comunistas, consideramos que é nosso dever fundamental estudar e
assimilar o marxismo-leninismo e aplicá-lo à realidade concreta da revolução
portuguesa; que é uma das nossa principais tarefas combater o revisionismo onde
quer que ele se manifeste e seja como for que se apresente; que é uma das nossas
tarefas essenciais defender o marxismo-leninismo e difundi-lo entre as massas
de mulheres trabalhadoras.
O presente é já do
marxismo-leninismo. Mas o futuro é marxista-leninista.
IV. A SITUAÇÃO POLÍTICA PORTUGUESA ACTUAL E AS NOSSAS TAREFAS
Camaradas
A nossa
Conferência realiza-se numa altura em que a situação política portuguesa é
extremamente complexa, encerra vários perigos para o movimento revolucionário
e, ao mesmo tempo, contém um certo número de condições e virtualidades objectivas
excelentes para o desenvolvimento da revolução.
O ano de 1980
terminou com uma importante vitória da classe operária e das forças
democráticas sobre as forças reaccionárias do imperialismo, dos grandes
capitalistas e dos latifundiários, precisamente na batalha política das
eleições presidenciais. O plano de Sá Carneiro - o plano de toda a reacção
conjugada - era claro: tratava-se de, através da eleição do candidato fascista
general Soares Carneiro, concentrar nas mãos dos partidos da coligação reaccionária
da AD e das forças que a apoiam todos os órgãos do Estado detentores de alguma
parcela de poder real, para, servindo-se deles e por meios quase
constitucionais, instaurar uma nova ditadura terrorista dos monopólios,
formalmente diferente da que existia antes do 25 de Abril, mas na essência, no
conteúdo e nos métodos de actuação, absolutamente idêntica ao fascismo.
O alinhamento da
classe operária e dos seus aliados com vista a apoiar uma candidatura
democrática, susceptível de impedir aquela manobra de envolvimento gizada pelo
grande capital - candidatura que foi a do general Ramalho Eanes - constituiu
uma política inteiramente justa, que concitou o apoio caloroso das massas
populares e se saldou por uma vitória significativa. Sobretudo, o que parece aqui
de sublinhar é o enorme desejo manifestado pelas massas trabalhadoras de se
unirem firmemente para a luta política, quando a táctica que lhes é proposta
corresponde plenamente às suas aspirações mais sentidas e quando certos perigos
graves se perfilam no horizonte. Neste sentido, a política de frente única
democrática e popular voltou a ter, como já não sucedia desde o verão de 1975,
um apoio entusiástico e indiscutivelmente mobilizador.
A vitória das
forças democráticas nas eleições presidenciais foi, no entanto, uma vitória em
si mesma muito limitada. Serviu para alcançar o objectivo imediato de impedir a
concentração de todos os poderes do Estado nas mãos dos partidos do grande
capital e dos latifundiários, mas esgotou nisso todas as suas capacidades de
momento. Faltou a essa frente unitária um objectivo político mais sólido e mais
avançado do que o objectivo imediatista de eleger um presidente e impedir que
outro candidato fosse eleito. A classe operária participou nessa frente, foi a
força decisiva dessa frente, mas não pôde dirigir como lhe competia essa
frente, em virtude do estado actual insuficiente da sua organização e da
impossibilidade de se libertar desde logo das concepções e da táctica dos
revisionistas e dos oportunistas.
Criou-se, assim,
um novo impasse político à saída das eleições. O grande capital, o
imperialismo, os latifundiários e toda a reacção conjugada não puderam alcançar
os objectivos políticos fundamentais do seu plano; por seu turno, a classe
operária ficou-se pelos objectivos imediatos e circunstanciais, porque não
soube ou não pôde definir, antes das eleições, objectivos políticos mais
importantes. A classe operária obteve uma vitória política mas não explorou o
sucesso, não consolidou o terreno, nem avançou para novas metas; a burguesia
sofreu uma derrota, mas não precisou de efectuar nenhuma retirada nem nenhum
recuo significativos.
Por outro lado,
como a classe operária não imprimiu o seu selo de classe à batalha política das
eleições presidenciais, nem conseguiu impor a sua direcção e hegemonia no seio
dessa frente - pois que não definiu objectivos correctos nem aplicou a táctica
certa, apesar dos esforços do nosso Partido nessa matéria - sucedeu que os
aliados da véspera das eleições passaram a procurar e a definir outro sistema
de alianças, logo no dia imediato ao conhecimento dos resultados eleitorais.
O próprio
candidato apoiado e eleito pelos trabalhadores, após caçado o novo mandato para
Belém, entrou logo de negociar, se não uma aliança, pelo menos um modus vivendi com o partido do defunto Sá Carneiro,
precisamente uma das forças que abertamente o hostilizara. Claro está que o
apoio do actual Presidente da República ao governo Balsemão, isto é, a um
governo da AD, significa um entendimento, uma aliança entre os sectores instáveis
da burguesia nacional vagamente democrática, que o Presidente representa, e a
grande burguesia representada na AD. Aliança que, da parte do Presidente da
República, significou abandono e repúdio do apoio que os trabalhadores lhe
deram ao elegê-lo.
O impasse político
que está a caracterizar este primeiro trimestre de 1981 tem, portanto, a origem
e as causas que ficam referidas. E é precisamente esse impasse que obriga os
diversos partidos burgueses - dos da AD ao PS e ao P“C”P - a redefinirem (por meio
de congressos, conselhos nacionais ou reuniões plenárias mais ou menos
alargadas) novas tácticas a curto e a médio prazo, para saírem do tal impasse,
que aliás eles próprios criaram.
Os perigos que
esta situação encerra são de vária ordem. Em primeiro lugar, porque o inimigo
manobra politicamente com inteiro à-vontade, sem que a classe operária,
empastelada pelo revisionismo e pelo oportunismo pequeno-burguês, compreenda a
necessidade vital que tem de impedir que o inimigo retome a iniciativa que perdeu
em Dezembro. Depois, porque a falta de iniciativa política própria da classe
operária a desorganiza e a desmobiliza, deixando-a sem capacidade de resposta a
qualquer ataque de surpresa. Finalmente, porque, sem uma actuação política
clarividente do proletariado, ele poderá vir a isolar-se completamente do seu
aliado mais seguro, o campesinato.
Mas há um outro
perigo, para que é urgente chamar a atenção. O plano Sá Carneiro contemplava -
e contempla - duas alternativas tácticas. A primeira era a que consistia na
eleição do candidato Soares Carneiro e que permitiria ao grande capital
consolidar a sua ditadura e reforçar a exploração e opressão das massas por
meios constitucionais e legais. Esta alternativa fracassou e, por agora, teve
de ser abandonada. Mas havia uma segunda alternativa: a do golpe de Estado
militar. Essa, que já se encontrava em adiantado estado de preparação, continua
de pé e continua a ser afanosamente ultimada. O dramático da questão está em
que todos os oportunistas tentam convencer por todos os meios os operários que
a derrota da primeira táctica significou também a derrota e o abandono da
segunda. O que é falso. E tanto é falso que o recente golpe de Estado militar
frustrado de Espanha veio pôr a nu as relações que havia, e há, entre esse
golpe e o golpe que estava, e está, em preparação em Portugal.
Nestes termos, a
actual lua de mel entre o governo da AD e o Presidente da República, por um
lado, e o namoro do PPD de Balsemão ao PS de Mário Soares, por outro lado, bem
como o desanuviamento nas relações do partido social-fascista com os partidos
do governo, não passam de uma cortina de fumo atrás da qual as forças
reaccionárias dos capitalistas e dos agrários aguçam as espadas e afiam os
meios militares para resolver o impasse a seu favor.
Nesta situação
política extremamente complexa e plena de perigos sérios para a classe
operária, não deixa de haver, todavia, condições e virtualidades excelentes
para o desenvolvimento do movimento operário e popular revolucionários. A
subsistência e agravamento do problema do desemprego, a persistência da
política dos despedimentos e dos contratos a prazo, o aumento dos impostos, da
dívida externa e do défice orçamental (que é, este ano, de cento e sessenta e
oito milhões de contos), a tentativa de impor um tecto salarial nem que seja
pela via administrativa, conjugada com a subida vertiginosa do preço das
mercadorias de consumo popular e dos serviços correntes; a eliminação e
restrição de verbas destinadas à saúde, à assistência social, à educação, à cultura
e à habitação; - tudo isto criará e está já a criar condições insustentáveis e
insuportáveis para a vida das massas e, daí, condições objectivas para um
relançamento em força do movimento operário e do movimento popular, no
princípio por reivindicações económicas e sociais mais sentidas, mas, a breve
trecho, também por reivindicações políticas mais avançadas e mais fundamentais.
As tarefas dos
comunistas são, neste quadro, simples de definir, embora exijam uma luta dura
para a sua aplicação com êxito. Trata-se de, antes de tudo e sobretudo,
consolidar o Partido, porque é da consolidação do nosso Partido que depende
tudo. Consolidar o Partido no domínio ideológico, combatendo o revisionismo e
denunciando-o e isolando-o junto das massas, ganhando-as para o marxismo-leninismo;
consolidar o Partido no domínio político, denunciando e isolando a política e a
táctica dos oportunistas, as ilusões na legalidade e na democracia burguesa, e
ganhando as massas para uma política revolucionária de princípio, para uma política
proletária consequente; consolidar o Partido no domínio da organização,
combatendo os pontos de vista liberais, revisionistas e pequeno-burgueses,
fortalecendo o centralismo democrático, a disciplina e o método da crítica e da
auto-crítica, reforçando a vida e a actividade de todos os nossos organismos,
alargando a nossa influência e a nossa rede de ligação com as massas e dotando
todo o Partido de uma infra-estrutura clandestina para fazer face a todas as
eventualidades.
É decisivo e vital
que todos nós nos compenetremos da urgência e da importância histórica do
cumprimento cabal destas tarefas de consolidação. É do cumprimento delas que
depende podermos vir a estar à altura de cumprirmos outras tarefas que a classe
operária reclama de nós com urgência, designadamente a tarefa indispensável de
organizar politicamente as massas operárias e camponesas a todos os níveis,
incluindo o nível sindical, sob direcção dos marxistas-leninistas. As condições
são muito boas para efectuar este trabalho de organização das massas, contanto
que disponhamos de um Partido sólido, firme, clarividente, activo, confiante e
bem dirigido. A recente vitória da lista de unidade proletária do Sindicato dos
Telefonistas de Lisboa e o trabalho, também de unidade, que tem estado a ser
feito para as eleições no Sindicato dos Jornalistas, bem como a iniciativa e o
apoio de massas que revelam alguns sindicatos que estão fora do controlo das
duas centrais existentes, comprovam que as massas querem ser organizadas e
aspiram a uma direcção política inteiramente diferente e oposta à organização e
à direcção dos revisionistas e da pequena burguesia.
Finalmente,
impõe-se-nos a tarefa, nem por isso menos importante apesar de indicada em
último lugar, de organizar todas as lutas económicas e imediatas que estejam ao
nosso alcance, definindo-lhes objectivos justos e imprimindo-lhes uma direcção
e uma perspectiva política correctas. Temos de multiplicar a nossa agitação nas
fábricas e nos bairros, porque é disso que em grande parte depende o reforço da
nossa ligação com as massas. E estas tarefas, que são de todo o nosso Partido,
são também tarefas de todas nós, mulheres comunistas. O desejo e a capacidade
de luta manifestados pelos trabalhadores nas múltiplas greves que têm marcado
este primeiro trimestre de 1981 comprovam que, se os comunistas cumprirem com
êxito as suas tarefas revolucionárias, a classe operária não deixará de cumprir
as suas.
Os objectivos
tácticos imediatos do Partido, portanto os objectivos tácticos imediatos da
classe operária, são os de lutar por derrubar o governo da AD e por criar um
governo democrático e popular, formado por todas as forças e por personalidades
democráticas, patrióticas, anti-fascistas e anti-social-fascistas, governo que
aplique uma política de independência nacional, que determine a saída de
Portugal da NATO e o desmantelamento das bases militares estrangeiras
existentes no nosso território, que renuncie à adesão ao Mercado Comum e que
denuncie os tratados desiguais impostos ao nosso povo pelos imperialistas; um
governo que nacionalize as empresas estrangeiras sem indemnização, que prossiga
uma política de nacionalização dos sectores básicos da economia e consagre o
controlo operário; que tenha uma política económica que tome a agricultura como
base e a indústria como factor dirigente, conte em primeiro lugar com as forças
e recursos do país, sustenha a inflação e melhore progressivamente o nível de
vida do povo; um governo que promova uma assistência, uma saúde e uma segurança
social condignas, resolva o problema da habitação e assegure o bem-estar do
povo; que proíba os despedimentos, reabsorva o desemprego e desenvolva a
educação e a cultura para as massas.
A luta por
derrubar o governo da AD e instituir um governo democrático e popular é uma
luta de unidade ampla da classe operária com o campesinato e todos os sectores
democráticos e patrióticos, uma luta donde deve estar completamente ausente
toda a manifestação de sectarismo. Esta política é justa, serve os interesses
dos operários e das massas populares em geral, é susceptível de enfrentar com
êxito os perigos que espreitam na actual situação e permitem aproveitar ao
máximo as boas condições e perspectivas, que também existem.
V. A SITUAÇÃO DA MULHER TRABALHADORA EM PORTUGAL E AS
TAREFAS DO MOVIMENTO FEMININO REVOLUCIONÁRIO
Camaradas
O nosso país é um
país em que uma escassa minoria de parasitas açambarcou para si as fábricas, as
melhores e maiores terras e os principais instrumentos de produção, e, na base
da propriedade privada que detém sobre esses meios, explora e oprime a
esmagadora maioria da população do país. Os que não trabalham têm tudo, e os
que trabalham não têm nada ou quase nada.
Dentro das massas
populares, no seio dos explorados e oprimidos, destaca-se como a mais grave de
todas as situações a situação em que vive e luta a mulher trabalhadora
portuguesa.
As mulheres
representam em Portugal quase cinquenta e três por cento da população, mas
constituem apenas vinte e cinco por cento da população activa. A mulher está,
portanto, largamente arredada, pelos imperativos e condições próprios do
sistema económico vigente, da produção social. Três quartas partes do número
total de mulheres não têm nenhuma actividade socialmente produtiva. Não quer
isto dizer que estas mulheres não trabalhem. O que quer dizer é que o seu
trabalho é socialmente inútil, ou socialmente improdutivo e, em qualquer dos
casos, não é remunerado.
Sabendo-se que a
libertação da mulher tem dois aspectos fundamentais, um dos quais é
precisamente a sua participação na produção social, bem se vê como as condições
objectivas, materiais, de que depende em grande medida o êxito da sua
emancipação, estão ainda atrasadas no nosso país.
A mulher
trabalhadora portuguesa é vítima da mesma exploração geral desenfreada de que
são vítimas os homens trabalhadores; mas ela vê essa exploração conduzida aos
últimos limites do possível. E isto porque os seus salários são por regra
inferiores aos dos seus companheiros nos mesmos postos de trabalho. A
desigualdade salarial, apesar de proibida por todas as convenções
internacionais nesta matéria assinadas pelo Estado português, persiste na
prática para a esmagadora maioria das mulheres e, inclusive, persiste mesmo em
alguns diplomas legais, como são os que fixam o salário mínimo nacional e os
que fixam os montantes das reformas e pensões, reformas e pensões que não são
mais que salários diferidos ou atribuição de descontos salariais efectuados aos
trabalhadores quando activos.
Há mais de meio
milhão de desempregados, o que constitui um flagelo social para os
trabalhadores. Como as mulheres representam apenas vinte e cinco por cento da
população activa, poderia pensar-se que também constituiriam vinte e cinco por
cento dos desempregados. Mas não: segundo as últimas estatísticas oficiais
publicadas, e que naturalmente não revelam senão de través a verdadeira
realidade, 68% dos desempregados são mulheres. Temos, portanto, que em cada dez
postos de trabalho encontramos, em média, duas mulheres; mas que em cada dez
desempregados vamos encontrar sete mulheres. Como, por outro lado, só dez por
cento dos desempregados auferem subsídio de desemprego, ainda assim miserável e
temporário, sucede que em cada dez mulheres desempregadas, só uma recebe
subsídio de desemprego. Nestes termos, entre a massa de meio milhão de
desempregados, cento e trinta e cinco mil homens não têm subsídio, mas há
trezentas e quinze mil mulheres nessa situação.
A famigerada lei
dos contratos a prazo é uma arma apontada ao coração dos trabalhadores, que
lhes cria uma angústia e uma revolta indizíveis. Mas as mulheres são as
principais vítimas. Na indústria têxtil, cuja chamada mão-de-obra é, na
esmagadora maioria, feminina, 60% dos trabalhadores estão actualmente com
contratos a prazo. E o mesmo se passa, embora em percentagens diferentes, nas
indústrias dos lanifícios e calçado, no material eléctrico e no electrónico, na
hotelaria e nas indústrias alimentares.
A lei dos
despedimentos é outra das armas contra-revolucionárias do capital, destinadas a
explorar e a oprimir quem trabalha. Mas os despedimentos em massa são
despedimentos sobretudo de mulheres.
A situação do
emprego para a mulher resume-se, em Portugal, nisto: 1º - a mulher não tem
emprego; 2º - quando o tem, ganha salários desiguais; 3º - quando o tem, está
contratada a prazo; 4º - quando o tem, está sobreameaçada de despedimento; 5º -
quando é despedida ou, por qualquer outra forma, cai no desemprego, não aufere
subsídio.
E nunca
conseguiríamos dizer tudo sobre a situação de emprego para a mulher
trabalhadora; porque teríamos de acrescentar sempre as prepotências e vexames
que lhes estão especialmente reservados pelos chefes e capatazes, as violências
com que especialmente a tratam os agentes do patrão e os agentes do governo dos
patrões, e toda uma série de patifarias que têm por alvo exclusivo ou
preferencial os trabalhadores do sexo feminino. Sem falar de que as
possibilidades de acesso aos postos de trabalho menos mal remunerados estão
praticamente vedadas para a mulher, ao mesmo tempo que indústrias altamente
nocivas e insalubres, inseguras e perigosas para a sua função biológica e
social de mãe, não poupam de maneira nenhuma a mulher.
Somos um país onde
grassa um analfabetismo endémico. Mas é claro que a grande vítima do
analfabetismo é também a mulher; seis em cada dez analfabetos são do sexo
feminino. Na instrução e no ensino, as mulheres estão praticamente confinadas a
certos sectores especiais, como se houvesse ramos do saber especialmente
femininos e outros especialmente masculinos. Noventa por cento das mulheres
alfabetizadas têm instrução igual ou inferior ao ensino primário.
Em matéria de
saúde, a mulher sofre e suporta a situação calamitosa geral de todo o nosso
povo. Vê morrer quarenta em cada mil crianças que nascem e antes que atinjam um
ano de vida; mais de dez por cento das mulheres grávidas têm os filhos em casa,
sem qualquer assistência, e outras vinte por cento contam com a assistência
unicamente de enfermeiras ou parteiras. Porque, quanto a maternidades, há doze
em todo o país, e porque médicos há muitos, mas não onde o povo precisa deles.
A assistência das Caixas não assiste ninguém; os subsídios de parto e de
aleitação são uma afronta à mulher trabalhadora, uma provocação às crianças, e,
se alguém estivesse à espera do seu pagamento para alimentar os filhos, nenhuma
das crianças chegaria a ser alimentada. O aborto é considerado crime, pelo que
tem de ser praticado em condições de clandestinidade. O resultado é que, das
200 000 mulheres que anualmente recorrem ao aborto, calcula-se que 2 000 morrem
e que um número quatro vezes maior do que este sofre mutilações de toda a
ordem.
Em matéria de
equipamentos sociais, somente uma em cada cem crianças tem acesso à creche; e
apenas uma em cada dez poderá ter acesso a um jardim de infância. Além disso,
das creches e jardins de infância existentes, três quartos são particulares,
pelo que as mensalidades exigidas são incomportáveis no salário dos
trabalhadores.
Por sobre tudo
isto, há ainda a situação da mulher no lar, onde realiza, depois de uma jornada
de oito horas na fábrica ou no emprego, mais oito horas de trabalho não pago,
em serviços domésticos socialmente improdutivos, estafantes e acabrunhantes.
Há a opressão
marital, proveniente do predomínio do homem na actual forma de família; há a
opressão paternal, que mantém a mulher solteira e a mulher jovem numa situação
de servidão perante o pai, o pai e a mãe e, às vezes, até perante o irmão mais
velho; há a opressão religiosa, pela qual as diversas confissões, a hierarquia
e a padralhada em geral tentam acorrentar a mulher à escravidão eterna e ao
opróbrio.
Na verdade, o
sistema capitalista é um sistema que pretende transformar a mulher num objecto
e numa coisa. Por isso, vemos aumentar de maneira alarmante as violências
sexuais exercidas sobre a mulher, as agressões físicas e as agressões morais, e
vemos como tudo isso fica praticamente impune e vai sendo considerado cada vez
mais normal.
Mulher é o nome
português de sobreexploração, sobre-opressão, discriminação e desigualdade.
As mulheres
trabalhadoras têm de unir-se e de organizar-se para porem cobro a esta
situação.
As tradições de
luta das mulheres do nosso povo, os exemplos de coragem, de dignidade, de
abnegação e de sacrifício que em todos os momentos importantes da nossa
história souberam dar, a acção revolucionária que tão frequentemente têm
empreendido, são um penhor de que a mulher trabalhadora portuguesa tem em si
todas as energias e todos os recursos anímicos para se libertar da escravidão
assalariada e da escravidão social.
A questão está em
saber a que princípios deve obedecer a luta das mulheres trabalhadoras, para
que o objectivo de libertação que almejam seja efectivamente alcançado. Porque
são esses princípios que devem nortear a nossa acção política de mulheres
comunistas e que devem esclarecer a própria consciência das mulheres em geral.
A razão
fundamental da actual situação de exploração, opressão, discriminação e
desigualdade da mulher está na existência de um sistema económico iníquo,
baseado na propriedade privada dos meios de produção social. É o sistema de
exploração capitalista, baseado na propriedade privada, que constitui a causa
fundamental da situação actual da mulher. Enquanto não for removida esta causa,
o seu efeito não desaparecerá. Assim, a luta das mulheres trabalhadoras pela
sua libertação só terá êxito e só será consequente, se assinar a si mesma o
objectivo de liquidar a propriedade privada dos meios de produção, colocando
esses meios à disposição de toda a sociedade.
A luta
revolucionária das mulheres pela sua emancipação é, portanto, parte integrante
da revolução proletária socialista, e a nada de frutuoso e duradouro conduzirá,
se não se mantiver dentro desta perspectiva. A luta revolucionária das mulheres
pela sua emancipação tem de ter por objectivo político fundamental o
derrubamento da burguesia e a instauração da ditadura do proletariado, porque
só por aí se socializará a propriedade privada dos meios de produção e se
criarão as condições para que a mulher possa participar, em igualdade com o
homem, na produção social.
Hoje em dia, uma
parte das mulheres participa já na produção. Isso constitui um imenso
progresso, porque cria as condições materiais que possibilitam o
desenvolvimento da consciência política da mulher e possibilitam a sua
organização para a luta revolucionária. Ao mesmo tempo, subtrai a mulher
trabalhadora da situação de dependência económica absoluta em que se encontrava
do marido no lar, criando condições objectivas para que o predomínio do homem,
com todo o cortejo de opressão, violência e servidão que lhe andam afectas,
seja, se não definitivamente afastado para já, pelo menos para já seriamente
posto em causa.
Mas este progresso
que é a participação da mulher na produção na sociedade capitalista, é um
progresso ganho à custa de uma maior opressão e de maiores sacrifícios da parte
da mulher. Porque agora ela, além do trabalho na fábrica, no campo ou no
escritório como qualquer trabalhador, tem ainda de desincumbir-se das pesadas e
estiolantes tarefas domésticas. É por isso que só no sistema socialista, sob a
ditadura do proletariado, mediante a passagem progressiva para a sociedade e
para o Estado do serviço privado doméstico da mulher, poderá a trabalhadora, já
liberta da exploração, libertar-se também da opressão marital e familiar.
Nós, comunistas,
só teremos êxito no nosso trabalho, se soubermos conferir ao movimento das
mulheres um carácter de massas. Para tanto, não basta ficarmo-nos pela
propaganda dos nossos princípios justos, por um esclarecimento da consciência
das mulheres quanto aos objectivos políticos fundamentais da sua própria luta.
Para que o movimento das mulheres assuma um carácter revolucionário e de
massas, nós, mulheres comunistas - e aliás todo o nosso Partido - teremos de
encorajar, perspectivar com correcção, organizar com solidez todas as reivindicações
concretas das mulheres, todas as aspirações imediatas por mais pequenas e
circunstanciais que possam parecer, porque isso educará de uma maneira
eminentemente prática a consciência das mulheres e criará condições para que
elas se abalancem a tarefas políticas mais importantes e decisivas, quando o
momento se lhes deparar.
A luta pela
igualdade de direitos com o homem, a luta contra a desigualdade salarial, a
luta contra a violência e os crimes sexuais perpetrados sobre a mulher, a luta
contra toda a forma de discriminação por mais subtil e enviesada que se
apresente - tudo isto são lutas menores, se comparadas com os objectivos
políticos finais, mas são lutas da máxima importância, porque trarão para o
movimento feminino as grandes massas de mulheres intermédias e recuadas,
ensinando-as a lutar e a ganhar confiança em si mesmas.
Do mesmo modo, a
luta contra a carestia de vida, contra o desemprego, contra os contratos a
prazo e os despedimentos, a luta pelo pão, pela habitação, por pensões e
reformas condignas, pela alfabetização, pelas creches, lactários e jardins de
infância, pelos equipamentos sociais nos bairros e nas fábricas, pela
assistência e o apoio à mulher-mãe - tudo isto são reformas parciais e
parcelares, sem dúvida, mas que bem organizadas e bem dirigidas trarão para o
movimento feminino massas gigantescas de mulheres.
É ainda neste
contexto que se insere a reivindicação do direito ao aborto em condições
sanitárias e terapêuticas seguras e a luta pela revogação da lei que qualifica
e pune o aborto como crime.
Temos de ter a
coragem de reconhecer que há todo um mundo de problemas extremamente sentidos e
sensíveis para a mulher, a que temos dado pouca ou nenhuma importância, e que
este facto é certamente responsável pelo não avanço significativo do nosso
trabalho neste campo.
Porém, não
deixamos de alertar para a verdade indesmentível de que só por si, sem um
enquadramento justo e sem objectivos políticos avançados, a luta das mulheres
não vai a lugar nenhum. O movimento de emancipação da mulher é um movimento
político, dirigido pela política do proletariado, conforme a táctica da classe
operária - e só assim cumprirá a sua função revolucionária.
Em resumo, o
movimento das mulheres trabalhadoras pela sua emancipação deve ter a natureza
política de um movimento revolucionário dirigido pelo proletariado, deve ter um
amplo carácter de massas, deve ser solidamente organizado e deve ligar a luta
pelos objectivos imediatos das mulheres aos objectivos finais do derrubamento
da burguesia, da instauração da ditadura do proletariado e do socialismo.
VI. A UNIÃO DAS MULHERES COMUNISTAS E A LUTA DOS
MARXISTAS-LENINISTAS PELA MOBILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES
Camaradas
Desde que surgiu,
em 18 de Setembro de 1970, como Movimento Reorganizativo do Partido do
Proletariado, o nosso Partido consagrou sempre uma particular atenção à
mobilização política e à organização das mulheres trabalhadoras, chamando-as à
luta pela sua própria emancipação, pela emancipação da classe operária e pela
libertação de todo o nosso povo.
O que desde sempre
caracterizou profundamente a acção política do nosso Partido neste campo da
luta das massas foi que, baseado no princípio da igualdade absoluta da mulher,
o sector feminino do nosso povo não devia em circunstância alguma ser afastado
da luta pelas tarefas e objectivos políticos comuns a todo o povo.
Por outro lado, o
Partido lançou-se desde a primeira hora em guerra aberta contra todos os pontos
de vista revisionistas e oportunistas, que proliferavam e proliferam tanto na
maneira de encarar o problema da mulher como nas soluções políticas propugnadas
para ele. Considerámos sempre que os piores inimigos da mulher e da luta pela
sua emancipação são os pontos de vista pequeno-burgueses, liberais e
revisionistas. Além disso, consequentes com a nossa posição de que o movimento
feminino é parte integrante da revolução portuguesa, sempre achámos que a
mulher devia ser chamada, mobilizada e organizada para cumprir as tarefas da
revolução e para lutar por ela. Neste sentido, os problemas específicos da
mulher eram e devem continuar a ser instrumentais em relação às tarefas
centrais da revolução. Quer dizer, a luta pela emancipação da mulher, no que
concerne aos seus objectivos imediatos, deve subordinar-se aos objectivos mais
fundos da revolução portuguesa.
Convém aqui
salientar que a importância desde a primeira hora dada no Partido à luta da
mulher pela sua emancipação teve, na sua origem, motivações eminentemente
práticas. É que, na nossa acção clandestina (como era o essencial da nossa
actividade antes do 25 de Abril) as mulheres foram de uma importância vital
para a vida do Partido. E é uma pena que essa história do que foi a luta das
mulheres em defesa do Partido e na aplicação da sua política antes do 25 de
Abril não esteja feita, porque é minha convicção que seria mais instrutiva e
reveladora do que todas as resoluções que pudéssemos aprovar sobre os nossos
próprios deveres hoje.
A primeira forma
de organização das mulheres a que o Partido recorreu foram os Comités 8 de Março.
O dia 8 de Março, como Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, foi comemorado
pela primeira vez em 1911. Mas pode-se dizer que só sessenta anos mais tarde, a
partir de 1971 e pela acção do nosso Partido, ele se transformou numa jornada
política de luta da mulher portuguesa.
Os Comités 8 de
Março eram organizações de unidade revolucionária, dirigidas pelas mulheres
comunistas. Esses Comités, assim que se constituíam, passavam de imediato a uma
actividade de agitação e de propaganda clandestinas, actividade que despertou
um grande entusiasmo e apoio entre as mulheres que dela tinham conhecimento.
Quando já havia um
certo número de Comités a funcionar, o nosso Partido lançou, sob a palavra de
ordem Em Frente na Luta pelo Pão, uma vasta e
acutilante campanha política na área de Lisboa e em alguns outros poucos sítios
do país, campanha que teve efeitos profundos e memoráveis.
Na luta contra a
guerra colonial-imperialista, as mulheres foram, em certa altura, um sector de
ponta extremamente aguerrido, e, em virtude do facto de que eram mães, irmãs,
mulheres ou noivas de soldados, dispunham de uma capacidade de penetração entre
as massas e de um impacto persuasivo de que mais ninguém dispunha.
Frise-se que as
duas maiores campanhas do Partido no domínio do trabalho feminino, no período
anterior ao 25 de Abril, não foram sobre problemas específicos das mulheres,
mas sobre problemas políticos da máxima importância para todo o movimento
revolucionário, centrados sobre duas das palavras de ordem fundamentais daquela
etapa da revolução: a luta pelo pão e a luta contra a guerra
colonial-imperialista.
Mesmo a primeira
grande jornada que organizámos para as mulheres nas vésperas do 25 de Abril - a
8 de Março de 1974 - foi uma jornada política de divulgação do Dia da Mulher
Trabalhadora, em que se lhe postulavam, como suas tarefas próprias, as tarefas
fundamentais da revolução democrática popular. A palavra de ordem dessa
campanha foi: De Pé Mulher Trabalhadora.
Quando, por essa
mesma altura, as mulheres dos operários da fábrica de limas Tomé Feteira, em Vieira de Leiria, tomaram a iniciativa de apoiar
a greve dos seus companheiros na fábrica, os Comités 8 de Março quase nada
falaram propriamente dos objectivos da greve, mas nunca se cansaram e quase
nunca mais se calavam de divulgar e propagandear o exemplo de elevada
consciência política das mulheres da Vieira.
Isto mostra quanto
são mesquinhos e reaccionários os pontos de vista que, sob o pretexto de
defender as reivindicações imediatas das mulheres, esquecem continuamente a
necessidade de defender as suas reivindicações políticas fundamentais e os
exemplos avançados da sua luta.
Depois do 25 de
Abril, durante o período em que a revolução esteve na ordem do dia e a questão
da tomada do poder político era a tarefa mais imediata, tanto as mulheres como
as massas em geral sabiam ligar por si mesmas os objectivos imediatos aos
objectivos políticos mais importantes.
Nessa altura,
surgiu a necessidade objectiva manifesta de criar uma mais sólida organização
das mulheres revolucionárias. Mas a proposta do nosso Secretário-Geral, nesse
sentido apresentada à II Conferência do Partido, foi bombardeada de todos os
lados, sob o “argumento” de que as mulheres e os homens tinham os mesmos
direitos e de que não havia razão para a utilização de qualquer forma
apropriada de organização da mulher trabalhadora. O resultado desta
argumentação esquerdista foi o mesmo do que se se tivesse decretado a extinção
dos Comités 8 de Março, ficando o Partido privado de qualquer organismo
apropriado para a mobilização das mulheres e para a realização de um trabalho
político amplo entre as massas femininas.
O I Congresso
Nacional do Partido não examinou seriamente nenhum problema relacionado com a
questão da mulher e deixou passar em branco a matéria. O II Congresso Nacional,
para variar, preparava-se para fazer a mesma coisa. Desta vez, porém, as
mulheres levantaram-se e exigiram explicações. Depois de um debate extremamente
interessante, foi aprovada uma recomendação ao Comité Central do Partido, para
que adoptasse as medidas políticas necessárias à criação duma organização de
mulheres comunistas, como primeiro passo visando a fundação e edificação de uma
organização das mulheres trabalhadoras.
O I Plenum do
Comité Central eleito no II Congresso cumpriu a recomendação e fundou a União
das Mulheres Comunistas, que celebra agora a sua I Conferência Nacional.
Vemos, assim, que
a nossa União das Mulheres Comunistas tem, desde o próprio II Congresso
Nacional, uma finalidade muito precisa, tanto política como organizativa:
fundar e edificar uma organização revolucionária da mulher trabalhadora, por
conseguinte, uma organização de âmbito, de conteúdo e de carácter muito
diferente daquele que tem a nossa UMC.
Parece, pois - e é
sem dúvida certo - que o II Congresso pretendeu que nós, mulheres comunistas
militantes do Partido, nos reorganizássemos enquanto mulheres, discutíssemos e
fizéssemos discutir dentro do Partido a questão feminina em todos os seus
aspectos, definíssemos os princípios políticos de actuação dos comunistas no
movimento revolucionário das mulheres, lançássemos com precisão e clareza os
fundamentos desse trabalho mais vasto, aprendêssemos a fazer o trabalho entre
as mulheres, puxássemos nós próprias o Partido a fazê-lo também em ordem - em
suma, o Congresso achou que era às mulheres comunistas que se devia confiar a
tarefa de encetar dentro do Partido um combate para revolucionarizar a nossa
mentalidade quanto à problemática da mulher.
A União das
Mulheres Comunistas tem sete meses de vida. Durante este curto período, não
esteve nunca parada. Participou, com duas militantes suas na Conferência da
Década da Mulher em Copenhaga, tanto na Conferência oficial da ONU como na
Conferência Alternativa. Em 24 horas, mobilizámos os fundos necessários a essa
deslocação e encontrámos apoio em toda a parte. Não escondo que os contactos
estabelecidos em Copenhaga e o conhecimento dos problemas que aí foram
discutidos nos abriram os olhos em muitas coisas, ainda que não tivéssemos
aproveitado, ou não tivéssemos podido aproveitar ao máximo essa experiência.
Enquanto isto, lançámo-nos na nossa primeira guerra, a propósito da
inexplicável morte de crianças que haviam nascido na Maternidade Alfredo da
Costa. Embora com algumas insuficiências da nossa parte, a verdade é que obrigámos
o inimigo a ver na nossa organização um porta-voz temível das massas, massas
que nos deram um indesmentível apoio.
A nossa acção
nesse período foi examinada no Relatório
Sobre a Actividade do Comité Central, que o Secretário-Geral do Partido apresentou
ao III Plenum, onde são feitas referências desvanecedoras e algumas críticas
muito estimulantes ao nosso trabalho. Fazendo o balanço da nossa actividade
neste período, o Relatório ao III Plenum salienta que as “iniciativas políticas
da União das Mulheres Comunistas colocaram as mulheres organizadas no PCTP/MRPP
à cabeça da luta pela direcção e hegemonia do movimento revolucionário das
mulheres trabalhadoras portuguesas. Nos últimos dez dias - sublinha o relatório
- tudo o que de politicamente importante se prendeu com o movimento das
mulheres trabalhadoras girou à volta das iniciativas da União das Mulheres
Comunistas”. E o relatório determina: “todo o Partido deve apoiar as mulheres
comunistas na luta que travam pela sua organização e pela direcção do movimento
revolucionário das mulheres trabalhadoras”.
Seguiu-se o
período da campanha eleitoral para as legislativas e para as presidenciais,
onde desempenhámos todas as tarefas que nos competiam como militantes do
Partido. Embora eu ache que teríamos podido fazer muito mais, a verdade é que
as mulheres mereceram uma referência calorosa no comício de encerramento da
campanha eleitoral por parte do Secretário-Geral do Partido.
Completadas as
eleições, abrimos imediatamente a preparação da nossa I Conferência Nacional,
cuja convocatória é de 27 de Novembro do ano transacto. Durante cerca de três
meses, preparámos com entusiasmo a Conferência que hoje celebramos. Vencemos
muitas dificuldades, encontrámos alguns obstáculos e incompreensões, mas o
apoio que recebemos das nossas camaradas e de todo o Partido foi o traço
dominante e fundamental.
Estamos aqui para
servir o Partido, a classe operária e a revolução. As decisões que tomarmos vão
transformar com certeza o nosso trabalho e vão-nos rasgar perspectivas e horizontes
novos. Considero que o balanço da nossa actividade é positivo, mas cometemos
alguns erros, por falta de experiência, por falta de um conhecimento mais
aprofundado quanto à atitude dos marxistas-leninistas face à questão da mulher
trabalhadora, e porque ainda não dominamos em toda a extensão e profundidade os
problemas específicos da mulher portuguesa. Mas é fora de dúvida que a
preparação desta Conferência e a sua própria realização representam já, e irão
representar mais ainda no futuro próximo e distante, um grande passo em frente
no desenvolvimento do nosso Partido e no cumprimento das nossas tarefas.
Agora que a
Conferência irá dotar a União das Mulheres Comunistas e todo o nosso Partido de
um conjunto de princípios claros e precisos de actuação, a questão que se nos
coloca é a de estudar e aplicar com entusiasmo o que vai ser aprovado,
ligando-nos intimamente à massa das mulheres trabalhadoras e começando a
organizar a sério o seu movimento revolucionário.
VII. PLANO DE ACÇÃO DAS MULHERES COMUNISTAS
Camaradas
A Comissão
Executiva da União das Mulheres Comunistas submete à vossa apreciação um
sucinto plano de actividades para o ano de 1981, plano que se destina a
imprimir um ritmo geral à nossa acção política, a pontuar a realização das
tarefas políticas, ideológicas e de organização que já atrás ficaram definidas
e que a Conferência examinará.
Nestes termos,
propomo-nos realizar:
NO DOMÍNIO DA PROPAGANDA
1. EDIÇÕES 8 DE
MARÇO - organizar e edificar esta Editora da União das Mulheres Comunistas,
editora que se destina, consoante se diz no prefácio do primeiro livro já
publicado, a instituir uma colecção de textos e documentos políticos, cuja
finalidade é a de divulgar as concepções científicas e os pontos de vista dos marxistas-leninistas
no que concerne aos problemas fundamentais que se prendem com a questão da
mulher trabalhadora.
Permito-me chamar
a atenção das camaradas delegadas para o esforço em matéria de organização e em
matéria financeira que as Edições 8 de
Março
representam para o nosso Partido. Apelo, por isso, a todas as camaradas, no
sentido de procederem à mais vasta e à mais rápida divulgação de cada um dos
volumes da nossa editora, recolhendo e enviando imediatamente os dinheiros e
fundos recebidos, porque, sem a realização imediata do capital investido,
ser-nos-á absolutamente impossível consolidar e desenvolver a editora e manter
o ritmo de publicações que a situação exige.
Estou persuadida
que nunca, com tanto escrúpulo e rigor na tradução e fixação dos textos, se
editaram no nosso Partido documentos como os que agora apresentamos aos
leitores e às leitoras. Tencionamos, se a editora se consolidar e desenvolver
segundo as nossas esperanças, inaugurar uma nova série de livros de maior
formato, para que se possa dar a conhecer obras de maior fôlego sobre a mulher
em outros domínios, como os da literatura e da arte.
O nosso objectivo
é criar uma biblioteca que forneça às mulheres os instrumentos teóricos e
ideológicos indispensáveis para que se conheça a si mesma e se organize para
lutar e vencer. Cada camarada e cada organismo do Partido devem edificar a sua
rede própria de difusão dos livros da editora e devem saber propagandeá-los com
entusiasmo. As Edições 8 de Março podem ser um
excelente instrumento na edificação do nosso Partido.
2. COLÓQUIOS - a
iniciativa dos colóquios que realizámos na Sede Nacional em Lisboa, foi
extremamente positiva. As condições actuais são propícias a este tipo de
actividades político-culturais, reforçam a ideologia e a consciência política
das pessoas que neles participam, aumentam o seu nível de conhecimentos e
permitem criar uma opinião pública marxista-leninista relativamente à questão
da mulher.
Porém, após a
Conferência, os colóquios devem sair, preferentemente, das sedes do Partido e
realizar-se nos bairros, nas escolas, nos clubes, nas cantinas das fábricas e
em outros locais onde haja condições para isso. Está claro que, sem uma boa
preparação dos colóquios, sem uma boa organização deles e sem a necessária
propaganda prévia, toda esta actividade ficará limitada. Devemo-nos esforçar
por dar a essas reuniões públicas o mais vasto carácter de massas possível.
3. DIVULGAÇÃO DA
CONFERÊNCIA - de imediato, devemos proceder à mais ampla divulgação dos
documentos políticos saídos da Conferência, discuti-los com as mulheres,
individualmente ou em pequenos grupos, recolher as suas opiniões para melhorar
o nosso trabalho, por forma a ligarmos às massas a própria Conferência.
NO DOMÍNIO DA AGITAÇÃO E DA LUTA POLÍTICA
1. PRIMEIRO DE MAIO
- preparar e organizar desde já a mobilização, no âmbito da acção geral do
Partido, de um grande número de mulheres trabalhadoras nessa importante jornada
política.
2. CAMPANHA
POLÍTICA - campanha de luta contra a carestia da vida, contra o desemprego,
contra os despedimentos, contra os contratos a prazo, contra a desigualdade
salarial, por aumento geral de salários, por um salário mínimo nacional de
12.000$00, por uma habitação condigna e barata, pela fixação dos preços dos
bens de primeira necessidade, por reformas e pensões de quantitativo igual ao
salário mínimo nacional e pelos equipamentos sociais que possibilitem à mulher
ter os filhos em segurança durante o período de trabalho ou de outras
actividades próprias.
3. CAMPANHA
NACIONAL PELA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO
NO DOMÍNIO DA ORGANIZAÇÃO
1. CAMPANHA DE
ADESÃO E DE RECRUTAMENTO
2. ORGANIZAÇÕES DE
MASSAS - criação de organismos democráticos e populares de mulheres, nos locais
de trabalho e de residência onde houver mulheres militantes do Partido. Estes
organismos podem assumir as mais diversas formas desde círculos de leitura do
“Luta Popular” a clubes de discussão e de debates, de núcleos de alfabetização
até comissões para a direcção de lutas concretas das massas.
3. EDUCAÇÃO
POLÍTICA - campanha pela elevação do nível de participação da mulher na
actividade política do Partido.
A propósito de
todas estas questões, a Comissão Executiva elaborará, na devida altura,
documentos e instruções mais precisas, preparando o lançamento das referidas
campanhas nos domínios que ficaram considerados.
Camaradas
Ao terminar, em
nome da Comissão Executiva da União das Mulheres Comunistas, a leitura do seu
Relatório Político e de Organização, gostaria de evocar os exemplos de
comunistas e de lutadores incansáveis da causa da revolução proletária, do
marxismo-leninismo, do socialismo e do comunismo, que nos legaram os camaradas
Ribeiro Santos e Alexandrino de Sousa. Os seus exemplos de lutadores
comunistas, educados pelo Partido e caldeados na luta das massas populares,
são, só por si, uma demonstração completa das virtudes populares que animam os
comunistas, da força imbatível da nossa ideologia e da certeza inquebrantável
da nossa vitória.
Nós, mulheres
comunistas, devemos muito a esses incomparáveis camaradas. Nunca os
esqueceremos. Jamais os trairemos.
Viva a I
Conferência Nacional da União das Mulheres Comunistas!
Viva a União das
Mulheres Comunistas!
Viva o
marxismo-leninismo-maoismo!
Viva o Partido
Comunista dos Trabalhadores Portugueses!
Comentários
Enviar um comentário
Sujeito a moderação